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Retratos da Exclusão - Negros na pobreza das grandes cidades

Periferias sem aulas e sem direitos

Bruna Nicolielo, de Salvador. Colaborou Beatriz Vichessi, do Rio de Janeiro

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Nas regiões pobres das metrópoles, a ausência do Estado afasta crianças e adolescentes dos estudos

Responsável por cuidar da irmã mais nova, Andréa*, 12 anos, não consegue ir à escola. Foto: Marcelo Almeida
Responsável por cuidar da irmã mais nova, Andréa*, 12 anos, não consegue ir à escola

Um emaranhado de barracos sem reboco domina a paisagem do Subúrbio Ferroviário, área periférica de Salvador que abrange 22 bairros e tem cerca de 600 mil habitantes - quase 25% da população da cidade. À medida que o visitante se distancia da bela Baía de Todos os Santos, descobre as vielas de Coutos, Periperi, Oxumaré e outras localidades cujos nomes remetem a portugueses, índios e africanos que habitaram a região. Esquecido pelo poder público, o lugar carece de bibliotecas, unidades de saúde, praças, áreas de lazer e delegacias. Nessa terra sem muitas perspectivas de futuro, o narcotráfico ganha importância. "Muitos alunos abandonam a escola por causa de ameaças de gangues que controlam o comércio de drogas", diz Maria*, diretora de uma unidade estadual da região, enumerando nomes e histórias de quem evadiu. As instituições de ensino são um dos poucos órgãos públicos da região, que cresceu com o aumento das ocupações irregulares nas décadas de 1970 e 1980. Em sua rotina, Maria* faz as vezes de assistente social, resolve conflitos e lida com o tráfico, além de tentar convencer, muitas vezes em vão, meninos e meninas a não desistir dos estudos.

A violência é só um dos fatores da longa lista que tira crianças e adolescentes da escola nas periferias das grandes cidades. As principais causas são a pobreza e os problemas vinculados a ela: condições precárias de moradia, ensino descontextualizado, situações de racismo e discriminação e falta de transporte, entre outras questões. Nesse contexto de precariedade, fica evidente uma faceta perversa da sociedade brasileira. Segundo dados de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 70,8% da população extremamente pobre do país é constituída por pessoas dos grupos de raça ou cor preta e parda. A razão é o próprio processo histórico do Brasil, que não implementou políticas de apoio a esses grupos após a abolição, contribuindo para afastá-los de direitos básicos. "No Brasil, a desigualdade educacional tem nome, endereço e cor de pele", assinala Silvio Kaloustian, coordenador do escritório de São Paulo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). A maioria (63%) das crianças e dos adolescentes de 4 a 17 anos fora da escola no país é afrodescendente.

A ausência do poder público acarreta também outros problemas. No Subúrbio Ferroviário, Juliana*, 17 anos, abandonou a 8ª série depois de 145 faltas. Tentou voltar, mas sequer foi reconhecida pela equipe docente e desistiu logo depois. Gabriela*, 16, largou os estudos na 6ª série. Ambas estavam grávidas quando saíram da escola e engrossam as estatísticas que relacionam a evasão à maternidade, em especial entre meninas negras e pobres. O relatório Situação da Adolescência Brasileira 2011, do Unicef, mostra que 6,1% das garotas de 10 e 17 anos sem filhos não estudavam em 2008, último dado disponível. Na mesma faixa etária, entre aquelas com filhos, a proporção chegava a 75,7%. Também é grande o número de alunas que evade para cuidar de irmãos menores. É o caso de Andréa*, 12 anos. Ela conta que a mãe é ambulante e trabalha nos arredores da estação ferroviária. A garota não consegue estudar porque cuida da caçula, Juliana*, 6 anos, que está sem vaga na escola.


Depoimento em vídeo de Maria de Salete Silva, do Unicef:

* Para preservar a identidade dos entrevistados, os nomes são fictícios.

=== PARTE 2 ====

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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 270, Março 2014. Título original: Periferias sem aulas e direitos
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