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A Escola Bosque do Amapá poderia ter mudado a Educação

No abandono de um projeto-modelo, a síntese de um ensino que agoniza com a descontinuidade administrativa

Fernanda Salla, de Bailique (AP). Design Jacqueline Hamine. Edição Rodrigo Ratier. Colaborou Laís Semis

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Polêmicas pedagógicas

Bailique. Distante 190 quilômetros de Macapá

Outras mudanças acontecem por divergências nas concepções pedagógicas. É o caso do Programa de Formação Continuada Parâmetros em Ação - Meio Ambiente na Escola (Pama), concebido no MEC durante o mandato de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). "Elaboramos materiais para trabalhar o tema de modo transversal no currículo escolar. Também estruturamos uma rede de educadores para viabilizar a formação em estados, municípios e escolas", conta Lucila Pinsard Vianna, coordenadora de Educação Ambiental no Ministério entre 1999 e 2002.

Depois de pronto, porém, o Pama teve apenas mais seis meses de vida. "Houve uma mudança de postura pedagógica quanto aos temas transversais mesmo na Espanha, onde eles surgiram", afirma Rachel Trajber, que sucedeu Lucila na coordenadoria de Educação Ambiental do MEC entre 2004 e 2011, na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). "É preciso respeitar o trabalho anterior, mas há políticas que precisam ser atualizadas e acompanhar as mudanças de conjuntura", defende ela.

E ninguém será punido

No entanto, ocorre que as diferenças conceituais muitas vezes são uma cortina de fumaça a encobrir mesquinharias, como intrigas partidárias, vaidades pessoais ou o frio cálculo político que visa prejudicar adversários nas eleições seguintes. "Falta no Brasil um mecanismo que responsabilize os governantes pelos prejuízos. Ninguém é punido", explica Thiago Klautau, que, motivado pelo caso da Escola Bosque, investigou em seu doutorado a ruptura de políticas públicas.

O problema é que grande parte dos projetos é pensada como política de governo, e não de estado. "Na área de Educação, os governantes deveriam se comprometer com algo para além de seus mandatos, pois qualquer mudança requer tempo e grande mobilização para acontecer", afirma Neide Nogueira, coordenadora pedagógica do programa de Educação Ambiental da Comunidade Educativa Cedac. A responsabilidade é tanto de quem cria quanto de quem recebe o projeto. Na mesma linha, Araújo, da UnB, ressalta que considerar o longo prazo é importante até mesmo para saber quando desistir de uma ação. "Encerrar uma política não é necessariamente errado, mas é preciso que haja um planejamento de quando ela daria resultados e indicativos claros para que se possa avaliá-la", sustenta.

Entre os especialistas, há consenso de que a participação da população é essencial no sentido de pressionar o poder público a continuar com o que está dando certo. Sem essa mobilização, iniciativas escolares com pouca visibilidade, como é o caso da Escola Bosque, isolada nas águas do Amazonas, acabam sendo o elo mais frágil.

No Bailique, o cenário anterior ao projeto voltou. Habitantes abandonam as ilhas. Saberes tradicionais, como o de carpintaria naval, são esquecidos. Pouco a pouco, a falta de manutenção e a força da natureza levam adiante a melancólica tarefa de apagar os vestígios do projeto que poderia ter transformado a Educação da região. A arquitetura original, com coberturas de palha à moda das ocas waiãpi, deu lugar a telhados de amianto, incompatíveis com o clima quente e úmido. A cena de alunos sentados em carteiras enfileiradas dentro de salas abafadas substituiu o contato direto com a natureza de que fala a reportagem de 1998 em NOVA ESCOLA. Não acontecem as lições planejadas embaixo das árvores ou na horta da instituição - hoje vazia - e à beira do rio. O auditório com infraestrutura completa, à disposição para eventos que receberiam pesquisadores, está subaproveitado. E a louça fabricada especialmente para os hóspedes do Hotel Escola Bosque, ornamentada com o logotipo da instituição, hoje é usada apenas nas raras festas da própria escola. Por lá, não há muito o que comemorar.

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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 281, Abril 2015. Título original: Esta escola poderia ter mudado a Educação
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