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A Escola Bosque do Amapá poderia ter mudado a Educação

No abandono de um projeto-modelo, a síntese de um ensino que agoniza com a descontinuidade administrativa

Fernanda Salla, de Bailique (AP). Design Jacqueline Hamine. Edição Rodrigo Ratier. Colaborou Laís Semis

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Por que parou?

As imagens desta reportagem revelam que a Bosque sobrevive - fruto do comprometimento dos professores que seguem trabalhando firme. Elas escondem, porém, as chances perdidas naquele espaço. O currículo passou a ser exatamente o mesmo do restante da rede amapaense, sem levar em conta as características e necessidades do entorno. O horário integral foi fatiado em três turnos. Das disciplinas específicas só restaram a de Linguagem e Literatura das Etnias e a de Plantas Alimentícias e Medicinais, essa última temporariamente sem professor. Não há mais cursos técnicos.

A razão para isso? Mudou o governo do estado e, com ele, o foco dos investimentos. Em geral, são questões políticas que motivam a interrupção de projetos iniciados em gestões anteriores. Mas o recomeço do zero tem justificativas diversas. Algumas, a bem da verdade, são consistentes. Como a que diz respeito a uma divergência clássica no campo das políticas públicas: a oposição entre universalistas e residualistas.

Os primeiros afirmam que as políticas sociais devem garantir o direito de todos os cidadãos. Já os residualistas defendem que as ações governamentais precisam privilegiar os que mais necessitam. Por mais que a Constituição de 1988 fale em direitos universais, as condições políticas - e, sobretudo, as restrições econômicas brasileiras - fizeram com que boa parte das iniciativas sociais não pudesse ser estendida ao conjunto da população. "Programas que contam com um tratamento diferenciado sempre foram polêmicos. Quem tem uma linha mais universalista defende que não se pode investir em algo que não atenda a todos", explica Luiz Araújo, docente da Universidade de Brasília (UnB).

Escolas-modelo como a Bosque se situam no meio dessa controvérsia. O mesmo ocorre com outros equipamentos públicos caros e vistosos, como os Centros Educacionais Unificados (CEUs), na capital paulista. No Rio de Janeiro, os famosos Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), construídos nas décadas de 1980 e 1990 durante as duas gestões de Leonel Brizola (PDT), também não progrediram. Segundo dados da Secretaria de Educação do Estado, das 515 escolas inauguradas naquele período, permanecem 285. O tempo integral, um dos pilares do projeto, continua a existir em apenas 68 delas. Foram municipalizadas 101 unidades. Muitos prédios acabaram destinados a fins alheios à Educação, dando lugar a postos de bombeiros e outros órgãos públicos.

Parte dos críticos atribui o desmanche ao custo do projeto, o que inviabilizava sua universalização. Mas a opinião não é unânime. De acordo com o artigo Comparação das Estimativas do Custo/Aluno em Dois CIEPs e Duas Escolas Convencionais no Município do Rio de Janeiro, de Marly Abreu Costa, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), o investimento dos Cieps por aluno de 1ª a 4ª série com pessoal e material se mostrou três vezes maior do que o das escolas regulares. O prédio, por sua vez, requeria o dobro de recursos. Porém, se operasse com a capacidade máxima, a verba seria justificável. "Além disso, a conta não considera o viés social da iniciativa, que deveria impactar em menos gastos públicos com outras áreas, como segurança", diz Lia Faria, docente da UERJ que trabalhou nos Cieps por 13 anos.

No Amapá, a Escola Bosque motivou uma discussão parecida. "Havia críticas de que o modelo não era replicável, mas tínhamos o plano de construção de mais sete unidades, que funcionariam como centros de referência e formação. Não deram tempo para isso", diz Dula. Procurado pela reportagem, Waldez Góes (PDT), que cancelou o projeto quando governou o Amapá entre 2003 e 2010 e está de novo à frente do estado, não retornou nosso pedido de entrevista.

"Encerrar uma política não é errado, mas é preciso que haja um planejamento de quando ela daria resultados e indicativos claros para avaliá-la." 
Luiz Araújo, professor da Universidade de Brasília (UnB)

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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 281, Abril 2015. Título original: Esta escola poderia ter mudado a Educação
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