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Entrevista com Mônica Molina, especialista em Educação do campo

Para especialista, a modalidade tem de contemplar a aprendizagem de saberes universais e sobre o local onde vivem os alunos. Assim, eles têm condições de escolher se permanecem ou não na zona rural

Paula Nadal

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=== PARTE 1 ====
Mônica Molina. Foto: Leonardo Prado

O Brasil possui 76,2 mil escolas rurais, de acordo com dados do Censo Escolar 2011. A mesma pesquisa mostra que, desse total, 42 mil são multisseriadas, quase 15% ainda não possuem energia elétrica, 89% não têm biblioteca e 81% não contam com laboratório de informática. Além da infraestrutura precária, um levantamento do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) feito com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2009 indica que 2,5% das crianças e dos adolescentes com idade entre 7 e 14 anos que vivem no campo estão fora da escola. Isso revela que ainda estamos longe de universalizar o acesso à Educação Básica na zona rural e de garantir a qualidade dele. Outro desafio é a formação dos professores que atuam nas escolas do campo. Segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), aproximadamente 160 mil (44%) não possuem sequer ensino superior.

Para Mônica Molina, professora e diretora do Centro Transdisciplinar de Educação do Campo e Desenvolvimento Rural da Universidade de Brasília (UnB), além da infraestrutura, do acesso e da formação, há outros pilares que precisam ser priorizados. Ela defende que o ensino rural englobe não somente os saberes universalmente produzidos, mas contemple o conhecimento local, dos meios de produção e das comunidades nas quais as escolas estão inseridas. Em entrevista a NOVA ESCOLA, Mônica defende um currículo que privilegie a permanência dos estudantes no ambiente rural e voltado à agroecologia e à sustentabilidade. Ela, que já coordenou o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), também discorre sobre as questões ligadas às políticas públicas da modalidade.

Quais os princípios básicos que norteiam o ensino rural?
MÔNICA MOLINA
A Educação nessa área é muito mais do que uma proposta pedagógica. Ela está associada à visão de campo, de desenvolvimento e da função do meio rural na sociedade brasileira. O objetivo não é, de maneira alguma, fixar as pessoas onde estão. Apesar disso, um dos princípios é garantir a elas o direito de acesso ao conhecimento sobre o local onde vivem, que garante sua sobrevivência social e material, além dos saberes universais, para que decidam se querem ficar ali ou, caso contrário, tenham condições de viver na cidade.

Que políticas são prioritárias para melhorar o acesso à modalidade e a qualidade do ensino oferecido?
MÔNICA
A principal delas deveria estar relacionada à elaboração de uma política nacional de formação de educadores. Atualmente, o Brasil tem mais de 360 mil professores no campo e 44% deles não têm nível universitário, o mínimo exigido pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Uma das caracterísitcas da realidade que vivemos é que muitos dos que lecionam para o Ensino Médio cursaram só até essa etapa.

As licenciaturas em Educação do campo são uma medida para acabar com o gargalo na formação?
MÔNICA
Sim. A prioridade é formar quem já atua nas escolas rurais. Hoje no Brasil há mais de 60 universidades que têm um trabalho bastante rico, profundo e comprometido com a temática. Muitos alunos desses cursos na UnB lecionam em escolas do campo no Distrito Federal, no Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul. Atualmente, também temos estudantes kalungas. Eles são de um dos maiores quilombos do Brasil.

O que é imprescindível levar em consideração para organizar as bases de funcionamento de um bom curso de licenciatura para educadores rurais?
MÔNICA
Podemos considerar que a maior parte das escolas do campo é unidocente, já que das 76,2 mil instituições, 42,7 mil são multisseriadas. É preciso ter a consciência de que precisamos formar um educador capaz de muitas coisas: pensar o projeto político-pedagógico (PPP), fazer a gestão administrativa e criar e manter o vínculo da instituição com as pessoas da comunidade. Nossa perspectiva é formar educadores para os anos finais do Ensino Fundamental e para o Ensino Médio. Na UnB, por exemplo, a matriz curricular foca a docência por área de conhecimento, a formação de educadores para a gestão de processos educativos escolares e a formação para a gestão de processos educativos junto às comunidades.

Qual a importância do Decreto nº 7.352/2010, sobre a política de Educação do campo?
MÔNICA
Ele é relevante porque preenche uma lacuna do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), de 2007. Este prevê a melhoria do acesso à Educação no país e da qualidade dela, mas não dá conta das especificidades da Educação rural. O decreto, de 2010, define a concepção do Estado sobre a modalidade (a população do campo tem direito a uma Educação que contemple as especificidades da vida na zona rural) e trata da garantia do direito à Educação Básica e Educação Superior no campo. Ainda prevê ampliar o investimento no sistema público de Educação no campo e a ampliação e a qualificação da oferta. No entanto, o Decreto em si não é a solução. A transformação só vai ocorrer de fato com a implementação real das políticas que ele aborda e com o desenvolvimento de ações de formação.

=== PARTE 2 ====

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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 258, Dezembro 2012. Título original: "A Educação do campo é muito mais do que uma proposta pedagógica"
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