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Educação rural: encurtando distâncias

Programa para atender as comunidades isoladas aumenta matrículas do Ensino Fundamental e do Médio

Elisângela Fernandes, de Xapuri, AC

Currículo adaptado. Foto: Marina Piedade
Currículo adaptado Alunos do 6º ao 9º ano têm um só professor para todos os conteúdos, que recebe apoio do núcleo regional

Garantir o acesso à Educação para todos os segmentos de ensino é o maior desafio da Educação rural no país. Geralmente, as comunidades isoladas têm salas multisseriadas com um professor que dá aulas somente até o 5º ano. Com isso, após concluir a primeira etapa do Ensino Fundamental, as crianças e adolescentes desses locais têm dificuldade para prosseguir os estudos. O Acre é um dos estados que enfrentam esse problema. Caracterizado pela baixa densidade demográfica (4,47 habitantes por quilômetro quadrado) e composto de apenas 22 municípios, ele tem boa parte de sua população vivendo em comunidades ribeirinhas, reservas extrativistas e assentamentos distantes das cidades. Na tentativa de resolver essa situação, a rede estadual de ensino criou, em 2005, o programa Asas da Florestania para atender os moradores dessas localidades.

Inicialmente voltado para a segunda etapa do Ensino Fundamental, o programa foi ampliado para o Ensino Médio em 2008 e, no ano seguinte, para a Educação Infantil. Embora em quatro dos 22 municípios não haja oferta para o Ensino Fundamental e, em outros cinco, para a Educação Infantil, o governo comemora o aumento do número de matrículas na zona rural: entre 2000 e 2009, passou de 10 para 23% nas séries finais do Fundamental e de 2 para 10% no Ensino Médio. "Há ainda muito a avançar para garantir o acesso à escola e a qualidade do ensino nessas localidades", diz Josenir Calixto, coordenador de ensino da Secretaria Estadual de Educação.

Professor polivalente também para as séries finais do Ensino Fundamental

Devido à dificuldade em contratar docentes especialistas para trabalhar nos locais distantes, um mesmo professor acompanha cada turma do 6º ao 9º ano. O currículo é organizado por módulos: os alunos trabalham todo o conteúdo de Linguagem por 30 ou 40 dias, depois têm aula de Matemática e assim por diante. O calendário escolar é mais curto - sete meses - e o Ensino Fundamental é finalizado em três anos. "A oferta das séries finais do Fundamental chega a 97% das comunidades rurais", diz Josenir Calixto.

Como a maioria das escolas do Acre (56%) tem apenas uma sala, segundo o Censo Escolar de 2009, elas não contam com diretor ou outros profissionais. A formação docente fica a cargo dos núcleos regionais de ensino - que fazem reuniões quinzenais - e das visitas trimestrais de um técnico da Secretaria. O professor Cosmo Costa Benigno, que é graduado em Educação Física, leciona para o 6º ano da Escola União, na área rural de Xapuri, a 175 quilômetros de Rio Branco. Ele diz que os encontros o ajudam no planejamento das aulas. "Os supervisores tiram as dúvidas e solicitam materiais à rede quando preciso."

Com o aumento das matrículas no Ensino Fundamental, cresceu a demanda pelo Ensino Médio. O estado organizou esse segmento também em módulos - Linguagens e Códigos e Suas Tecnologias, Ciências da Natureza e Suas Tecnologias e Ciências Humanas e Suas Tecnologias. Nesse caso, porém, é um especialista que dá aula em sistema de rodízio: ele fica três meses em uma comunidade e ensina todos os conteúdos relacionados à sua área. Quando vai para outra, é substituído por um colega, que trabalha outro campo do conhecimento. O currículo ainda prevê aulas de espanhol e cursos técnicos baseados na vocação produtiva da comunidade. Os professores também recebem formação dos núcleos regionais de ensino.

Na Educação Infantil, agentes educadores vão até a casa dos alunos

A dificuldade em conseguir transporte adequado fez com que o governo optasse pelo atendimento domiciliar para a Educação Infantil. "Não dá para exigir que as crianças e os pais cruzem a floresta e atravessem rios", explica Francisca das Chagas Souza da Silva, gerente do ensino rural do estado. Os agentes educadores são moradores da própria comunidade que já concluíram ou estão cursando o Ensino Médio e passam por um processo seletivo. Eles vão à casa dos alunos duas vezes por semana e seguem um roteiro de duas horas, que inclui atividades como cantigas de roda e desenhos, baseadas no Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Quinzenalmente, um supervisor do núcleo regional acompanha os educadores nas residências e tira as dúvidas em relação ao planejamento e à avaliação.

Em 2009, o Asas da Florestania foi integrado ao Programa de Inclusão Social e Desenvolvimento Econômico e Sustentável do Estado do Acre (Pró-Acre), financiado pelo Banco Mundial e pelo governo estadual até 2014. Segundo Josenir Calixto, o Asas não será interrompido após esse período. "O programa deve ter continuidade, pois tornou-se uma política pública de longo prazo", diz o coordenador de ensino.

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Publicado em GESTÃO ESCOLAR, Edição 019, Abril/Maio 2012. Título original: Encurtando distâncias

 

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