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Textos com estilo

Ao trabalhar com obras de autores consagrados na nossa literatura, estudantes de todas as séries produzem textos cada vez melhores

Denise Pellegrini

Só existe um jeito de escrever bem: ler muito. Se seus alunos estão acostumados a revisar as próprias produções em busca de erros e formas de melhorá-las, que tal propor um desafio diferente? Apresente textos clássicos de nossa literatura e obras variadas de escritores consagrados, com uma missão: encontrar os acertos. Isso mesmo. Identificar os recursos utilizados para tornar a narrativa mais interessante, saborosa, instigante. De cara, a atividade vai ajudar a formar amantes da boa literatura. E os estudantes certamente vão começar a incorporar os "truques" aprendidos às próprias produções.

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Quanto antes você introduzir essa prática em sala, melhor. "Até os que ainda não dominam o sistema alfabético podem participar de uma aula assim", afirma Rosângela Veliago, consultora do Ministério da Educação no Programa de Formação de Professores Alfabetizadores. "A criança, ao ouvir um bela narrativa, também aprende a apreciá-la."


Não basta, no entanto, ler para o aluno. Essa atividade tem como objetivo a reflexão sobre a linguagem e, por isso, deve ser cuidadosamente planejada com esse fim. Ou seja, não se trata de fazer interpretação ou ensinar gramática. "O olhar da criança tem de estar focado na forma, não no conteúdo", enfatiza Rosângela. Analisar um texto do ponto de vista estético permite ao estudante (e ao professor) identificar o tipo de pontuação e a forma de marcar os diálogos, o jeito de indicar a mudança de tempo dentro da história ou os caminhos para evitar a repetição de palavras.

O essencial na hora de planejar uma aula (ou melhor, uma sequência de aulas) desse tipo é ler muito. Só assim você conseguirá selecionar as histórias que melhor se adaptam às características de sua turma. E não se esqueça de fazer dessa atividade uma rotina. "Não é em dois ou três dias que o jovem aprende a identificar o estilo de um autor", alerta a consultora Rosângela.

As vantagens na prática

A análise linguística é aplicada sistematicamente por Rosalinda Soares Ribeiro de Vasconcelos, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Octávio Pereira Lopes, em São Paulo. No ano passado, ela fez pelo menos um exercício desse tipo por semana com a 2ª série. No início, organizou a atividade de forma coletiva. "Escrevia um trecho de uma história já lida no quadro e pedia que os alunos se aproximassem, colocando as carteiras em semicírculo, para que todos ficassem mais atentos e concentrados." Mais tarde, já familiarizados com o trabalho, eles passaram a trabalhar em duplas.

A tarefa: destacar os recursos utilizados pelo escritor para deixar os textos "diferentes e bonitos". Depois de listar as passagens marcadas, começavam os comentários, mediados por Rosalinda. Segundo ela, só as palavras diferentes chamavam a atenção nas primeiras semanas. Com o passar do tempo, as crianças foram percebendo outros elementos, como o uso do pronome para substituir o nome do personagem, do travessão no meio da frase para separar a fala do personagem da do narrador, das reticências para indicar suspense ou dos parênteses empregados para dar uma explicação.

A chamada "revisão do texto bem escrito" ajuda a melhorar a coesão, a coerência e a pontuação das produções, além de ampliar o vocabulário. "Até mesmo termos como 'portanto', empregados de forma adequada, eu encontro nas lições", comemora Rosalinda. Uma espécie de efeito colateral igualmente positivo é que a turma se tornou mais crítica. "Ao fazer a correção coletiva da produção de uma criança no quadro, os colegas logo apontam palavras repetidas e sugerem mudanças." Nada mais natural para quem aprendeu a reconhecer um bom texto. "Um dia, um menino me disse que gostava muito dos livros de Clarice Lispector, porque parece que ela conversa com a gente." Quer prova maior de que a estratégia funciona?

Um mestre especial


Os alunos de Rosalinda analisaram um trecho de A Assembleia dos Ratos, de Monteiro Lobato, e destacaram passagens em que o autor, segundo eles, escreve "diferente". Confira os comentários:

Tornando-se muito sério o caso, resolveram reunir-se em assembleia para o estudo da questão. Aguardaram para isso certa noite em que Faro-Fino andava aos mios pelo telhado fazendo sonetos à lua.

- Acho, disse um deles, que o meio de nos defender de Faro-Fino é lhe atarmos um guiso ao pescoço. Assim que ele se aproxime, o guizo o denuncia e pomo-nos ao fresco a tempo.


tornando-se = VERBO ANTES DO SUJEITO
O autor poderia ter escrito "o caso estava se tornando sério". Do jeito que ele fez ficou melhor

assembleia = NOVOS VOCÁBULOS
Palavra que quer dizer reunião. Quando fazem greve, as pessoas vão à assembleia para resolver problemas. Monteiro Lobato usou o termo porque, na história, os ratos também precisavam pôr fim a um problema

aos mios = EM NOME DA BELEZA
Expressão muito bonita. Significa que o gato andava miando. Se o autor tivesse optado por esse modo simples, teria ficado mais feio

sonetos à lua = AJUDA DO DICIONÁRIO
Todos marcaram a palavra "sonetos", mas não sabiam o significado. Depois de procurar no dicionário, chegaram à conclusão de que o gato queria falar algo para a Lua relacionado à poesia

lhe atarmos = A RIQUEZA DA LÍNGUA
Uma maneira diferente e bonita de dizer amarrar nele

pomo-nos ao fresco a tempo = O LUGAR DO PRONOME
Alguns marcaram "pomo-nos" e outros "ao fresco a tempo". Depois de muita discussão, concluíram que Monteiro Lobato quis dizer que os ratos poderiam fugir antes que o gato chegasse

Quer saber mais?

Escola Municipal de Ensino Fundamental Octávio Pereira Lopes, R. Alcy Borges dos Santos, 242, CEP 02276-020, São Paulo, SP, tel. (11) 6241-7020

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Publicado em Janeiro 2002.

 

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