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Autor de bons textos em formação

Ensinar planejamento, textualização, revisão e edição é fundamental para garantir o desenvolvimento de bons escritores

Beatriz Vichessi

Foto: Paulo Vitale
INÍCIO INTELIGENTE A turma da EMEF Professor Rosalvito Cobra planeja os textos antes de escrevê-los. 
Fotos: Paulo Vitale
Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10

Escrever bem é uma tarefa extremamente complexa e que envolve múltiplas capacidades. Por isso, quando se fala em produção de textos, demanda-se um trabalho detalhado e a longo prazo a fim de que os alunos saibam buscar materiais que sirvam de modelo e sejam capazes de olhar para o que escreveram e verificar se está confuso, redundante ou incompleto. E mais: eles precisam revisar e reescrever o material até que ele fique bom o suficiente para ser apreciado e compreendido pelos leitores.

Para alcançar todos esses objetivos, existem diversas situações didáticas que podem ser colocadas em prática. O importante, seja qual for a escolhida, é que os estudantes entrem em contato, desde o primeiro momento, com uma proposta global e semelhante a situações que ocorrem nas atividades de comunicação da vida social. É fundamental também que o docente se concentre na exploração das diversas etapas que compõem a produção (planejamento, textualização, revisão e edição) e que saiba identificar as fragilidades que a turma apresenta para, assim, eliminá-las.

Porém, além de nem sempre os passos descritos acima serem explorados de modo produtivo, muitos projetos são colocados em prática de modo pasteurizado, como se uma ideia bem-sucedida com uma turma pudesse ser aplicada em outra da mesma forma. Para o trabalho dar certo mesmo, é necessário considerar o grupo real e fazer adaptações quando necessário (na maioria dos casos, elas são). Foram esses cuidados, entre outros, que fizeram Claudia Tondato, professora da 4ª série da EMEF Professor Rosalvito Cobra, em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, merecer o título de Educadora Nota 10 do Prêmio Victor Civita de 2009. "Ela percebeu que, apesar de saberem escrever textos coesos e coerentes, as crianças ainda precisavam trabalhar mais no planejamento das histórias e deixá-las criativas", explica Beatriz Gouveia, coordenadora dos programas Além das Letras e Formar em Rede, do Instituto Avisa Lá, e selecionadora do prêmio. Claudia propôs que reescrevessem A Bruxa da Rua Mufetar, um conto do francês Pierre Gripari (1925-1990) publicado em Os Contos da Rua Broca, substituindo o personagem principal (leia o quadro abaixo). "Todos pararam para pensar nas características do novo personagem, observando como era a bruxa do texto original", fala Claudia. O recurso didático a que ela recorreu tem nome. Trata-se de uma produção com apoio, que elimina algumas dificuldades (no caso, inventar uma história) para que os alunos se concentrem em outras. Combinar textos já conhecidos, transformar um gênero em outro (redigir um conto de mistério com base em uma notícia), escrever textos inspirados em outros conhecidos (como uma carta que um personagem teria escrito a outro) e planejar o enredo de um texto coletivamente para que cada estudante escreva sua versão são outras possibilidades.

Reescrever para escrever melhor

Foto: Paulo Vitale
E A CRITIVIDADE? Claudia ajudou a turma a desenvolver boas ideias para escrever textos corretos e com qualidade

Claudia Tondato começou a trabalhar como educadora há 22 anos e há 20 leciona na mesma instituição, a EMEF Professor Rosalvito Cobra, em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, onde mora. Aos 40 anos, ela é mãe de um casal de adolescentes. Além de ser formada em Ciências (licenciatura), fez faculdade de Pedagogia pelo Programa de Educação Continuada (PEC) - Formação Universitária pela Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho (Unesp). Durante o desenvolvimento do projeto de reescrita, ela se surpreendeu com as inúmeras boas ideias que o grupo apresentou.

Objetivo
No trabalho com a turma da 4ª série, Claudia desejava que todos produzissem textos de qualidade. A proposta feita à turma era reescrever o conto A Bruxa da Rua Mufetar, presente no livro Contos da Rua Broca, substituindo o personagem principal e fazendo as adequações necessárias para que a novidade fizesse sentido. Dessa forma, ela também queria que os estudantes entrassem em contato com as etapas de planejamento do texto e de revisão.

Passo a passo
Depois de ler para as crianças o conto A Bruxa do Armário de Limpeza, do mesmo livro, ela perguntou que personagem poderia ocupar o lugar da bruxa e quais os recursos o autor havia usado para deixar o texto mais divertido. Em seguida, propôs que o grupo registrasse suas opiniões no caderno Coleção de Boas Ideias, uma fonte de consulta para o momento da reescrita. Com os alunos organizados em duplas, ela deu início à reescrita de A Bruxa da Rua Mufetar, que ganharia um novo personagem e faria parte de um livro a ser doado à biblioteca da escola. Claudia acompanhou todo o processo, fazendo várias intervenções deixadas em bilhetes aos alunos. A etapa de revisão (realizada em duplas) também envolveu aspectos notacionais, como questões ortográficas. Por fim, os textos foram digitados pelos próprios alunos.

Avaliação
Durante todo o trabalho, Claudia intervinha para ajudar as crianças a repensar suas decisões. Com isso, analisava as dificuldades ainda presentes. Ela questionou o uso ou a ausência da pontuação e a escolha do discurso indireto, por exemplo. Também observou se eles percorriam todas as etapas necessárias para escrever textos coesos, coerentes e criativos - planejamento, textualização, revisão e edição - e como esse trajeto era feito.

A revisão é parte integrante do processo de produção

Foto: Paulo Vitale
PERGUNTAS E DICAS Para orientar a revisão feita pelas duplas, Claudia deixa bilhetes em cada um dos textos

Seja qual for o tipo de produção proposto, é preciso ter em mente que planejamento e revisão são processos que precisam ser ensinados à garotada.

A fantasia de que ideias brilhantes pairam no ar e de que bons escritores simplesmente têm facilidade para escrever deve ser desconstruída. É função do professor explicar que, embora os textos de autores profissionais não tenham traços do processo de produção, eles foram planejados, escritos, revisados diversas vezes e lidos por várias pessoas até estarem bons o suficiente para chegar às mãos dos leitores.

Outro ponto importante que tem de ser mostrado às crianças é que recorrer a bons modelos, para desenvolver um repertório sólido, é uma atitude imprescindível para escrever bem e com criatividade. Afinal, não se trata de copiar, mas de aprender com uma experiência, usando-a como referência (leia o projeto didático).

Foto: Paulo Vitale
HORA DA REFLEXÃO A turma interrompe a produção para refletir sobre as vantagens do discurso direto

Em relação ao ato de revisar, ele não pode ser substituído pela correção do professor, como se fossem a mesma coisa. Ao corrigir, costuma-se transformar os erros em acertos que nem sempre são compreendidos pelos alunos. E durante as próximas escritas, na tentativa de atender às correções, eles acabam cometendo os mesmos erros. Natural: as crianças apresentam uma espécie de cegueira diante dos próprios erros, como descrevem Auguste Pasquier e Joaquim Dolz, no texto Un Decalogo para Ensenar a Escribir, publicado na revista espanhola Cultura y Educación. Fazer o estudante revisar o que produz proporciona uma reflexão a respeito de equívocos e ausências e reforça o papel da etapa como integrante da produção de texto.

É claro que dicas do professor durante o processo são bem-vindas. "Esse personagem ainda não foi apresentado" ou "É importante descrever o ambiente para o leitor compreender a história" são bons exemplos. "Quais recursos você pode usar para esse trecho ficar interessante?" é uma pergunta que também ajuda a turma a avançar. Fazer o grupo voltar ao modelo para apreciar as saídas encontradas pelo autor é outra estratégia.

Só depois que os alunos observam e recorrem a elas o professor pode nomear o recurso. Claudia, por exemplo, interveio quando percebeu que muitos estudantes optavam pelo discurso indireto, o que empobrecia as reescritas. "Copiei um trecho de diálogo no quadro e perguntei à turma o que fazia com que ele fosse bom", diz ela. A atitude revela claramente que não faz sentido ter medo de interromper o trabalho da turma e chamar a atenção para um ponto que precisa ser discutido. Deixar que escrevam tudo para só depois corrigir só impede que se formem autores autônomos.

Quer saber mais?

CONTATOS
Beatriz Gouveia
Claudia Tondato
EMEF Professor Rosalvito Cobra, tel. (11) 4220-3964

BIBLIOGRAFIA
Chapeuzinho Vermelho Aprende a Escrever
, Clotilde Pontecorvo, Emilia Ferreiro, Isabel García Hidalgo e Nadja Ribeiro Moreira, 232 págs., Ed. Ática, tel. (11) 3990-2100 (edição esgotada)
Contos da Rua Broca, Pierri Gripari, 120 págs, Ed. Martins Fontes, tel. (11) 2167-9900, 36,50 reais
Escola, Leitura e Produção de Textos, Ana Maria Kaufman e Maria Helena Rodríguez, 180 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-7033-444, 44 reais

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Publicado em NOVA ESCOLAEdição 230, Março 2010,

 

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