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Ensinar a escrever para formar autores

Quando o tema em questão é produção de texto, a escolha do gênero é uma entre as muitas decisões que o autor precisar tomar

Márcia V. Fortunato

Márcia Fortunato / Foto: Marina Piedade
MÁRCIA V. FORTUNATO
"Sugerir uma produção à turma
significa propor um problema cuja
resolução vai exigir o empenho em
uma série de atividades cognitivas."
Foto: Marina Piedade

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Até meados do século 20, as aulas de redação eram momentos de treino de caligrafia e não havia a preocupação em explorar os aspectos discursivos do texto. Depois, e até bem pouco tempo atrás, ensinar a escrever estava relacionado somente ao trabalho com a gramática. Acreditava-se que ela, por si só, gerava os saberes de que os estudantes necessitavam para produzir e interpretar textos.

De lá para cá, muita coisa mudou e hoje o trabalho com a escrita é focado nos diversos gêneros. Mas eles não podem ser usados como substitutos da gramática. A exploração dos gêneros é importante, claro, porque as crianças se colocam em situação de comunicação e aprendem a escrever textos que circulam socialmente. Porém ensinar a escrever é ainda mais proveitoso se elas forem orientadas a aperfeiçoar cada vez mais o processo de produção do texto.

Descobrir como fazer isso é o que querem muitos leitores, que, como você, não sossegam frente a perguntas como "O que significa, de fato, formar escritores competentes?", não é mesmo? Natural e compreensível, já que essa é uma área que pede muita preparação, estudo e intervenções constantes para acompanhar e guiar o caminho dos alunos. Mesmo com um trabalho bem dirigido, é bom frisar: nem todos eles apresentarão os mesmos resultados, o que torna difícil dar o trabalho por encerrado e bem-sucedido. Por isso, proponho pensarmos um pouco no estudante como autor e como se dá o processo de sua construção.

À medida que um indivíduo passa a utilizar a escrita para criar textos, suas possibilidades de comunicação e de socialização se ampliam. Ao mesmo tempo, conforme sua participação avança pelas esferas sociais letradas, ele constrói uma imagem de si associada aos textos que escreve, elaborando assim sua identidade de autor. Para entender isso com mais clareza, basta pensar nos escritores profissionais. Quando vemos o nome de um deles na assinatura de um texto, reconhecemos essa identidade antes mesmo de começar a ler o material.

Sendo assim, ao ensinar os alunos a escrever, o educador não ensina uma técnica, mas como eles devem fazer para se projetar como autores e usar seu discurso para manifestar posições em situações de comunicação. Sugerir uma produção à turma significa propor um problema cuja resolução vai exigir o empenho em uma série de atividades cognitivas.

Pesquisadores já constataram que para responder à solicitação do professor cada aprendiz reformula, de modo singular, a demanda feita, adequando-a às suas possibilidades de resposta. Assim, ajusta o que foi solicitado ao possível, iniciando uma série de negociações, entre o que ele sabe e o que é pedido, no desejo de tomar decisões quanto ao conteúdo sobre o qual vai escrever, à natureza do texto solicitado, à sua posição como autor e ao leitor com quem vai se comunicar.

Nesse processo, à medida que avançam em sua produção, os alunos vão estabelecendo um diálogo com outros textos e com o material que estão desenvolvendo. É fundamental que durante esse tempo o educador observe em que momento do processo se localizam as dificuldades deles e atue para que as negociações evoluam, com atividades de planejamento, de escrita e de revisão. Essas, aliás, devem ser revisitadas constantemente durante a escrita, pois os estudantes que alternam com mais frequência esses passos obtêm melhores resultados que aqueles que mantêm o processo linear e homogêneo. Mãos à obra e bom trabalho!

 

Márcia V. Fortunato é doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e professora dos cursos de graduação e pós-graduação do Instituto Superior de Educação Vera Cruz (ISE Vera Cruz)

 

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Publicado em , Maio 2010,

 

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