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Célia Diaz Argüero: "A organização do texto vale tanto quanto vírgula e ponto"

Pesquisadora do México fala sobre as hipóteses que os estudantes possuem a respeito da pontuação na alfabetização inicial

Gabriel Pillar Grossi, de La Plata, Argentina

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Foto: Maria Agustina Marmoni
CELIA DÍAZ ARGÜERO "Oferecer textos prontos e pedir para pontuar não ajuda o professor em nada. O melhor é colocar a garotada para escrever e observar a organização gráfica." 
Foto: Maria Agustina Marmoni
Vírgulas servem para indicar breves pausas para respirar. Pontos indicam pausas mais longas. Aspas aparecem quando queremos mostrar que alguém disse alguma coisa. Se você aprendeu pontuação assim (ou ensina seus alunos usando apenas essas informações), talvez seja hora de rever alguns conceitos.

"Na sala de aula, dizemos que ela serve para separar unidades sintáticas e organizar o texto", afirma Celia Díaz Argüero. "Só que as crianças nem sequer entendem o que isso significa." Pesquisadora e professora do Instituto de Pesquisas Filológicas da Universidade Nacional Autônoma do México, ela coordena desde 2003 um trabalho com crianças das séries iniciais para descobrir como elas efetivamente apreendem o sentido de dividir e reagrupar as ideias no papel usando sinais de pontuação para que qualquer pessoa possa entendê-las. E mostra que esse jeito tradicional de ensinar não resolve o problema da garotada.

Celia esteve em São Paulo em outubro de 2009 para apresentar seu trabalho na Semana de Educação, promovida pela Fundação Victor Civita. Confira a seguir algumas das principais conclusões de sua pesquisa, que ajuda a entender como os alunos constroem os principais conceitos sobre a pontuação.


O que suas pesquisas revelam sobre como as crianças aprendem o que é (e como usar) a pontuação?
CELIA DÍAZ ARGÜERO
Em primeiro lugar, que a explicação oficial para o que é a pontuação está muito distante do que as crianças de 6 e 7 anos sabem sobre os usos da língua. Elas compreendem que todos falamos em "blocos", mas a passagem da fala para a escrita é muito mais complexa do que falar em "unidades sintáticas". Em outras palavras, a pontuação tem a ver com o que as crianças pensam sobre o idioma, mas não necessariamente com o que a escola quer que elas aprendam. O que descobrimos, ao realizar o trabalho, é que os alunos rapidamente compreendem que a pontuação está associada a duas coisas: à entonação e à ideia que se completa. Isso significa que nas séries iniciais é relativamente fácil compreender que o sinal "?" está associado a uma pergunta porque falamos com uma entonação diferente quando propomos uma questão a alguém. Por outro lado, nesse primeiro momento, é muito difícil para uma criança entender que uma lista de itens precisa de sinais de pontuação porque, para ela, a lista é uma unidade em si. Além disso, o uso que as crianças fazem dos sinais de pontuação atende a ideias específicas que elas têm sobre a função de tais marcas gráficas na construção de um texto - e essas ideias não têm a ver com os conceitos formais que a escola divulga sobre o que é pontuação.

De que forma as crianças organizam o texto quando ainda não compreendem o sentido da pontuação?
CELIA
Entre a unidade letra e a unidade texto, existem diferentes unidades, como palavras e parágrafos. Mas as crianças trabalham com tudo junto: letra, sílaba, palavra, parágrafo. Porque essas unidades textuais não são nada óbvias para quem está aprendendo a ler e escrever.

Como isso se traduz nas produções dos estudantes em classe?
CELIA
Não há um comportamento igual em 100% dos casos. Ao contrário, há enormes diferenças de compreensão das regras de pontuação, de criança para criança. Mas é bastante claro que a organização gráfica do texto é muito importante para a grande maioria dos alunos em início de alfabetização. A forma como os pequenos colocam as palavras no papel e a forma como exploram os espaços em branco na folha dizem muito sobre suas concepções de linguagem. Para o professor, é essencial saber disso e observar a organização visual das produções para poder avaliá-las e ajudar a garotada a avançar. É essencial ter a clareza de que, na alfabetização inicial, a organização dos textos não é só uma questão sintática. Ela é visual também.

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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 225, Setembro 2009.

 

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