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O ABC do RPG

Professores que embarcaram nos chamados jogos de interpretação explicam como usar o recurso para ensinar conteúdos do 6º ao 9º ano

Manuela Biz

Imagine que um professor de História está discutindo a escravidão no Brasil e deseja ressaltar para a turma as dramáticas condições de vida a que os negros trazidos para cá eram submetidos. Na classe ao lado, um docente de Ciências quer falar sobre o processo de fissão atômica, base das bombas nucleares, sem despejar sobre os alunos um monte de equações incompreensíveis. À primeira vista, nada em comum entre as duas situações. Mas a cena nas salas é a mesma: grupos de cinco ou seis alunos lançam dados e recebem instruções de um colega. Resolvendo enigmas relacionados ao conteúdo curricular, eles debatem entre si. Parecem entretidos e interessados na atividade. Estão jogando RPG.

A sigla vem do nome em inglês role playing game - em português, "jogos de interpretação de papéis". Surgidos nos anos 1970, os RPGs funcionam como uma espécie de dramatização: os jogadores são transferidos para um lugar e uma época imaginários e encarnam personagens ficcionais, seguindo um enredo predefinido e contado por um narrador. Enquanto os acontecimentos são descritos, todos precisam imaginar o que está ocorrendo e são instigados a resolver os enigmas. Das respostas e decisões depende o desfecho da história.

Originalmente, os RPGs foram concebidos para ser apenas um passatempo de adolescentes. Mas, no início da década passada, eles começaram a atrair a atenção de educadores. Hoje há núcleos em universidades dedicados a estudar seu potencial no ensino de diversas disciplinas. "O RPG desenvolve nos alunos características como criatividade, socialização, capacidade de argumentação e liderança, já que é preciso tomar decisões para definir o rumo da história. Sem contar que a atividade torna a aula mais agradável", afirma Luiz Ricon, pesquisador da Pontifícia Univesidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro e autor de livros sobre o tema (leia no quadro abaixo dicas dos especialistas para planejar um jogo).

Tradução escolar

Para que o RPG esteja a serviço do aprendizado, sua transposição do universo adolescente para a sala de aula não pode ser direta. O fundamental é que a ação esteja ancorada num conteúdo específico que sirva de base para a aventura. A partir daí, os estudantes discutem e fazem pesquisas para descobrir como seus personagens devem agir. Cabe ao professor analisar se as propostas da turma são possíveis - e coerentes - à luz do conteúdo em questão.

Para a aplicação em sala de aula, a organização do jogo também precisa de adaptações. Por exemplo, o costume de usar fantasias para representar cada personagem, a menos que seja importante para a contextualização do conteúdo, é dispensável. Além disso, quem já conhece o RPG usado como entretenimento deve estar se perguntando como fazer os alunos seguir tantas regras. Simplicidade deve ser a palavra de ordem. "O jogo tradicional está para o futebol profissional assim como o educacional está para a 'pelada' de fim de semana. No uso pedagógico, algumas normas devem ser suprimidas para facilitar o entendimento e manter o dinamismo, já que muitos RPGs de entretenimento têm enredos complexos e exigem tempo para ser decifrados", diz Kazuco Kojima Higuchi, mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP) e professora da rede pública do estado. Mesmo com regras resumidas, o mais recomendável é utilizar o recurso nos anos finais do Ensino Fundamental ou no Ensino Médio, com turmas cujo repertório possibilite compreender as regras com maior facilidade (veja como realizar a atividade nas turmas do 6º ao 9º ano no quadro acima).

Também é preciso discernimento para saber que conteúdo pode ser abordado com RPGs. A lei de ouro, aqui, é examinar se ele facilita o entendimento do que se pretende tratar. Você se lembra do exemplo da escravidão, citado no início desta reportagem? Se a idéia for fazer o aluno imaginar com realismo os dissabores do trabalho forçado, o RPG pode ser um bom recurso. "É mais interessante explicar a abolição quando o aluno já 'vivenciou' a sensação de ser um quilombola fugitivo. A compreensão do conteúdo é superior", diz Vivien Morgato, professora de Leituras Clássicas da Faculdade Comunitária de Campinas.

O mapa da mina

Escolher um bom RPG educativo ou desenvolver um próprio é apenas o primeiro passo para o planejamento da atividade. Os consultores ouvidos por NOVA ESCOLA listam uma série de orientações para que o jogo - e, principalmente, o aprendizado - seja um sucesso:

- Familiarize-se com o jogo
O melhor é começar como jogador. Assim, você vivencia a aventura e repara erros do enredo que concebeu.

- Tenha um objetivo pedagógico
Apesar do caráter lúdico da atividade, sua função primordial na escola é incentivar a pesquisa sobre um conteúdo. É com base nele que os desafios propostos durante a aventura devem ser estruturados.

- Não dê respostas
Num RPG, os estudantes mais que nunca têm postura ativa. Oriente-os a pesquisar em livros e filmes e a trocar informações com os colegas.

- Planeje o tempo
É importante estar atento tanto ao esgotamento do assunto quanto à necessidade de um desenvolvimento maior que o esperado. Para dar aos alunos tempo de buscar respostas sobre um mistério, uma alternativa é dividir a aventura em mais de um dia de aula.

- Gerencie o imprevisto
O que acontece na história não pode ser controlado inteiramente porque depende da interação com os alunos. Dê espaço e investigue aspectos curiosos relacionados ao conteúdo.

 Um segundo fator importante para que a brincadeira ajude a ensinar é focar na contextualização do espaço e da época em que se passa a aventura. Vivien experimentou na prática a relevância dessa ação ao aplicar jogos de RPG para os alunos do Ensino Médio do Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Campinas, a 98 quilômetros de São Paulo. "Durante um jogo sobre a Roma antiga, uma das meninas da sala que interpretava uma cidadã romana se recusou a cumprir a ordem de um guarda de César. Logo os outros alunos perceberam o erro e advertiram que aquela atitude não estava correta, pois eles haviam lido um texto sobre a submissão imposta às mulheres naquele tempo", relembra. Para aumentar a familiaridade histórica, ela incentiva os alunos a pesquisar e descrever as competências e habilidades de seus personagens na ficha que os identifica, aprofundando a imersão na história (veja um exemplo na imagem abaixo).

FAZENDO A FICHA Na descrição do personagem, alunos contextualizam tempo e espaço da história
FAZENDO A FICHA 
Na descrição do personagem, alunos 
contextualizam tempo e espaço da história

Há ainda outros casos em que o RPG pode ajudar. Professor do Ensino Fundamental e Médio da Escola Santa Marina, em São Paulo, Francisco de Assis Nascimento Júnior inventou diversos jogos para apresentar às turmas do 9º ano assuntos áridos, como a teoria da relatividade restrita, de Albert Einstein. "Na introdução à Física moderna, uso o enredo do RPG como metáfora para ensinar conteúdos que ou repeliriam o aluno - como equações sobre o comportamento das partículas em velocidades próximas à da luz - ou seriam impossíveis de demonstrar no laboratório escolar, como uma explosão nuclear, por exemplo", diz ele.

Enredo explosivo

Uma das criações de Francisco que mais fazem sucesso é A Separação Faz a Força, sobre a invenção da bomba atômica. A história gira em torno da guerra entre os reinos Azul e Dourado, interrompida devido a uma doença contagiosa que, até então, nunca havia vitimado muita gente. Convidando a turma a assumir o papel dos pesquisadores da cura, ele orienta a atividade para que, no final, os grupos descubram uma analogia entre o princípio de infecção da doença e o da divisão de um átomo, que expele partículas com energia suficiente para partir outros átomos - é a fissão nuclear, reação-base da bomba. "De cada dez grupos em que aplico esse RPG, oito conseguem chegar à conclusão. É um momento mágico para eles perceber que entenderam todo o processo sozinhos", entusiasma-se o professor, jogador de RPG desde a adolescência.

Mas, no caso dos alunos de Francisco, o aprendizado não se deu num passe de mágica. Antes de começar a jogar, a turma já possuía conhecimentos básicos sobre a relação entre massa e energia, importante para entender as reações atômicas. A opção do docente - usar o RPG para reforçar o conteúdo aprendido, ou no máximo agregar uns poucos novos elementos a ele - é compartilhada pela maioria dos especialistas no assunto.

Apenas uma etapa

Luiz Ricon, da PUC-RJ, acredita que o jogo é mais bem aproveitado quando usado depois da explicação inicial. "Ele funciona como outra perspectiva sobre o mesmo tema", opina. Já para a professora Kazuco, o RPG pode até apresentar um novo conteúdo, mas o professor deve estar preparado para oferecer aos alunos ferramentas de pesquisa a qualquer momento em que as dúvidas surjam. "E, quando a aventura termina, é importante incentivar a turma a relatar tanto a experiência do personagem quanto o aprendizado do tema abordado." O consenso, desta vez, é que o RPG deve ser apenas uma etapa do ensino do conteúdo. Ter consciência disso é fundamental para que o jogo, além de divertir, também ajude a turma a avançar.

Quer saber mais?

CONTATO
Colégio Sagrado Coração de Jesus
, Av. Dr. Manuel Afonso Ferreira, 245, 13100-029, Campinas, SP, tel. (19) 3753-2400

Escola e Faculdade Santa Marina, Av. Guilherme Giorgi, 430, 03422-000, São Paulo, SP, tel. (11) 2296-2400
Francisco de Assis Nascimento

BIBLIOGRAFIA

Curumatara - De Volta à Floresta, Maria do Carmo Zanini e José Roberto Zanchetta, 172 págs., Ed. Devir Livraria, tel. (11) 2127-8752, 28 reais

INTERNET

Exemplos de RPGs educacionais

Artigos e indicações sobre como utilizar o RPG em sala de aula

Sugestões de livros com RPGs educativos

Artigo acadêmico sobre a história dos RPGs e sua ligação com a educação

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Publicado em NOVA ESCOLAEdição 214, Agosto 2008,

 

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