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O fim da seca?

Bombear as águas do Velho Chico para irrigar o sertão pode ajudar as turmas de 5ª a 8ª série a analisar o futuro social e ambiental da Região Nordeste

Tatiana Achcar

Para quem vive às suas margens, ele é o Velho Chico, que refresca e irriga a região. Para as pessoas que sofrem com a seca no sertão, ele não passa de um rio distante e desejado. A cobiça vem justamente quando se imagina suas águas matando a sede da população e mantendo produtivas as pequenas propriedades agrícolas do Polígono das Secas, localizado na Região Nordeste.

De acordo com o Ministério da Integração Nacional, responsável pelo projeto de transposição do São Francisco, o desvio de 1,4% de seu volume servirá para abastecer rios do Ceará, da Paraíba, do Rio Grande do Norte e de Pernambuco, que ficam secos em certas épocas do ano. A água para irrigação ou indústria será a que sobrar depois que o abastecimento humano estiver garantido.

Orçado em 4,5 bilhões de reais, o projeto aguarda decisão judicial. Se liberado, ainda levará cerca de dois anos para ser concluído. A idéia de desviar o curso do rio foi debatida pela primeira vez em 1847, no governo dom Pedro II. Nunca houve consenso sobre se essa é a melhor maneira de acabar com a seca no Nordeste (leia ao lado), mas você e seus alunos têm muito a aprender com esse tema.

Sala de aula

O homem no meio
O professor de Geografia Francisco Ednardo Gonçalves, de Natal, trabalhou a transposição do rio São Francisco pelos aspectos físicos. Já seu colega Thiago Lima, de João Pessoa, abordou os fatores econômicos e sociais. Acompanhe as duas experiências.


Paisagem transformada

A turma de 5ª e 6ª séries de Educação de Jovens e Adultos da EM Irmã Arcângela, em Natal, é quase toda composta por pessoas que saíram do interior e conviveram com a seca. Quando elas ouviram falar que o São Francisco poderia chegar ao sertão, a alegria foi geral. Imaginaram a água saciando a sede e irrigando a plantação. O professor Ednardo preparou atividades para todos conhecerem melhor o projeto do governo e estudarem dois conceitos geográficos: paisagem e espaço. "O objetivo era descobrir como ambos sofrem mudanças ao longo do tempo."

Os alunos consultaram mapas do percurso do rio, fizeram cartogramas indicando as cidades ribeirinhas e as que estão no trajeto dos novos canais, e analisaram dados sobre a população nas últimas décadas. Compararam tudo com a história do rio Potengi que integra as cidades do interior do Rio Grande do Norte com o litoral e fotos antigas com atuais.

Uma visita ao trecho próximo à foz do Potengi levou à constatação de que o aumento da densidade demográfica e das atividades econômicas causou a deterioração do rio e a destruição da mata ciliar. Os estudantes deduziram, então, que o mesmo pode ter acontecido com as cidades banhadas pelo São Francisco. Ednardo leu matérias de jornais e revistas e organizou debates. No final, todos entenderam como o cenário local pode mudar depois que o projeto for implementado.

Reais interesses

Thiago Lima, do Colégio Interativo, em João Pessoa, trabalhou o assunto na 8a série com enfoque na agricultura de subsistência que emprega metade da população local e questionou: esse setor da economia será beneficiado? Para orientar a pesquisa, ele pediu que os estudantes procurassem informacões sobre como o projeto tornaria a vida das pessoas mais digna.

Lima levou para a sala de aula textos variados. Alguns informavam que as áreas agraciadas pela transposição pertencem a latifundiários.

Os alunos pesquisaram termos desconhecidos (como assoreamento e canalização do leito) e estudaram mapas, fotografias, imagens de satélite e desenhos dos eixos de interligação. "Não queria consenso, porque ele não existe nem entre os especialistas.

Meu objetivo era que os jovens exercessem a cidadania, debatendo o tema."

Consultoria: Francisco Sarmento, do Projeto São Francisco, João Abner, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e João Suassuna, da Fundação Joaquim Nabuco

Estudar a transposição... 

• Permite entender o problema da seca.

• Ajuda a formar opiniões sobre o projeto e a debatê-lo.

• Relaciona conceitos de Geografia com a realidade das comunidades locais.

UM RIO, MUITAS OPINIÕES

A FAVOR 

• A oferta de água no semi-árido vai aumentar. Hoje ela é inferior à metade estabelecida como mínima para a vida humana (500 m3 ao ano por habitante).

• Cidades de médio e grande porte não vão sofrer mais com a escassez de água.

• O rio será revitalizado em vários trechos.

• A perda da água por evaporação nos açudes vai diminuir, já que o bombeamento será constante.

CONTRA

• O Nordeste é auto-suficiente em recursos hídricos, mas usa mal a água.

• Localidades com pouco dinheiro e poder político continuarão sem água.

• A água está poluída em diversos trechos do rio.

• Há risco de salinização e erosão dos rios receptores e de desequilíbrio ecológico.

Quer saber mais?

Colégio Interativo, R. Monsenhor Walfredo Leal, 439, João Pessoa, PB, 58020-540, tel. (83) 3241-6270

EM Irmã Arcângela, R. São Pedro, 188, Natal, RN, 059104-270, tel. (84) 3232-4828

Internet
Conheça o projeto Revitalização e Integração do rio São Francisco em www.integracao.gov.br/saofrancisco/perguntas/index.asp

Você pode participar do debate sobre a transposição acessando o fórum de discussão do site www.projetobr.com.br 

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Publicado em NOVA ESCOLAEdição 193, Junho 2006,

 

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