publicidade

Passagem segura do 5º para o 6º ano em Matemática

Quando os professores do 5º e do 6º ano dialogam sobre as dificuldades dos alunos e mudam sua forma de trabalhar, a transição é mais tranquila. O ensino é aprimorado e a aprendizagem ocorre de forma contínua

Elisângela Fernandes

Página de > >|
=== PARTE 1 ====

Na trajetória de nove anos do Ensino Fundamental, há um ponto específico, uma curva em que muitos alunos vacilam: a chegada ao 6º ano. Além de se depararem com vários professores, eles precisam se acostumar rapidamente com a forma como os docentes ensinam - mais focada nos conteúdos do que nas necessidades das crianças. Para pesquisadores, as consequências dessa transição são maiores em Matemática. O 6º ano contempla desafios mais complexos, por exemplo, em relação ao tamanho dos números, às figuras geométricas e aos sentidos das operações.

"A formação inicial dos professores contribui para a dificuldade de adaptação do aluno", explica Célia Maria Carolino Pires, docente do Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação Matemática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Em Pedagogia, há uma preocupação maior com os processos de aprendizagem, mas praticamente não há disciplinas voltadas aos conteúdos matemáticos. Já as licenciaturas enfatizam a área específica, deixando de lado a didática. "Essa ruptura ocorre em um momento crítico, quando os estudantes estão construindo conceitos como o de número racional e compreendendo a relação entre grandezas", lembra Terezinha Nunes, especialista em Psicologia da Educação e docente da Universidade de Oxford, na Inglaterra. Isso explica, em parte, por que o avanço em Matemática na Prova Brasil é maior nos anos iniciais do Fundamental do que nos finais. Entre 2009 e 2011, a proficiência média dos alunos do 5º ano cresceu 27 pontos e a dos do 9º ano só 13.

A dinâmica das redes de ensino também contribui para esse cenário. Os programas de formação continuada atendem separadamente pedagogos e matemáticos, a coordenação pedagógica não os integra e os conteúdos não têm continuidade. Para piorar, muitos alunos mudam de escola e de rede no 6º ano. Na universidade, a situação não é melhor. Os pesquisadores investigam o ensino nos anos iniciais ou nos finais e não focam a passagem. Por fim, tanto os docentes do 6º quanto os do 5º têm dificuldade em dialogar com os colegas do outro segmento, entre outros motivos, porque trabalham em mais de uma escola (os horários de planejamento não coincidem) e por terem muitas turmas.

O resultado é que quem leciona no 5º ano se queixa dos matemáticos que não reconhecem o saber dos estudantes e das pressões que sofrem por causa das avaliações externas, como se fossem os únicos responsáveis pelo ensino dos alunos durante os quase cinco anos. Na outra ponta, os docentes do 6º atribuem ao trabalho feito nos anos iniciais a falta de base com que a turma chega até eles. Na maioria dos casos, esperam que a classe "domine" as quatro operações, o que incluiria saber usar os algoritmos e conhecer a tabuada de cor. Porém esse é um processo que perpassa todo o Fundamental e envolve os diversos sentidos das operações e dos conjuntos numéricos.

Os conteúdos vistos nos dois anos são muito próximos e, se forem conectados, o aprendizado tende a se tornar um processo contínuo. "A solução para a questão está na troca entre os professores das duas fases do Fundamental", defende Célia. Para ela, devem ser privilegiadas reuniões de estudo e planejamento que tenham como objetivo comum melhorar a aprendizagem. Iniciativas nesse sentido estão começando a surgir no país. Nas próximas páginas, você vai conhecer três delas, realizadas por uma rede de ensino, uma universidade e uma escola pública. Em todas, os docentes do 5º e do 6º ano reconhecem as dificuldades que os colegas enfrentam e refletem sobre sua prática para aprimorá-la. Em vez de buscar culpados, eles trabalham para que os alunos não hesitem nessa esquina e continuem aprendendo.

=== PARTE 2 ====
=== PARTE 3 ====
=== PARTE 4 ====

Página de > >|

Gostou desta reportagem? Assine NOVA ESCOLA
e receba muito mais em sua casa todos os meses!

 

Publicado em NOVA ESCOLA Edição 257, Novembro 2012. Título original: Passagem segura
Comentários

 

 

Associação Nova Escola © 2016 – Todos os direitos reservados.