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Artigo | Maria Cardoso Senatore

O papel do aluno nas aulas de Língua Estrangeira

Maria Cardoso Senatore

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Maria Cardoso Senatore, mestre em Língua e Cultura Italiana para estrangeiros na Universidade de Estudos de Módena e Reggio Emilia (Unimore), na Itália. Foto: Victor Malta
Maria Cardoso Senatore Mestre em Língua e Cultura Italiana e professora de Língua Portuguesa para estrangeiros na Universidade de Estudos de Módena e Reggio Emilia (Unimore), na Itália
Palavra de especialista

A maioria dos professores de línguas geralmente tem uma ideia baseada na própria formação ou experiência sobre o que é ensinar um idioma, e ela nem sempre coincide com o que dizem as ciências da aprendizagem. Uma das dificuldades encontradas por eles é compartilhar saberes e refletir juntos sobre a prática. Proponho então uma análise sobre a centralidade do aluno no processo de aprendizagem da disciplina.

Se é verdade que o estudo aumenta a capacidade de abstração, parece também que quem trabalha com pesquisas tende a se afastar da escola. Em contrapartida, é preciso pensar se os educadores consideram os conceitos necessários por trás de cada uma das ações. Eles costumam se perguntar: "Em que abordagem me baseei para propor a tarefa?" e "Qual tipo de avaliação utilizo?".

Vamos considerar a abordagem como um guia do modo de trabalhar, que pode orientar as decisões e ajuda a definir, praticar e avaliar um programa. Não me refiro à abordagem como método (procedimentos e modelos de ações repetíveis) porque não se pode dizer que existe uma definição compartilhada do que é um método de ensino de línguas estrangeiras. O fato é que quem conhece as diferentes abordagens sabe os limites, reconhece suas dificuldades e pode superá-las.

Independentemente da abordagem de uma língua, o estudante a aprende de acordo com tempos e modalidades pessoais. É o que Corder chama de built-in syllabus (em tradução livre, programa interno inato) (SCALZO, 2011, p. 142, apud CORDER, 1967). Segundo essa visão, o aluno estabelece, ainda que inconscientemente, o programa de aprendizado. Do que se pode concluir que não há correspondência biunívoca entre o que o professor ensina e o que o estudante aprende.

Se o ponto central hoje é o aluno, é preciso verificar que lugar essa novidade ocupa no planejamento. Scalzo (2011, p. 138) escreve: "O estudante é o catalisador de todas as decisões didáticas". Se aceitamos esse pressuposto, parece que chegou o momento de nos colocarmos de um modo mais aberto diante das motivações e necessidades do aluno. "Necessidade é um termo genérico. Pode indicar tanto as linguísticas como aquelas de natureza social ou psicológica." Em geral, indica "aquilo que falta a um dado grupo de indivíduos para realizar linguisticamente situações de equilíbrio em relação ao seu estado de falantes, aos papéis que cumprem na comunicação social, à expressão da sua personalidade" (CILIBERTI, 2006, apud COMPAGNONI, 1979, p.102).

Não é possível criar um programa-padrão. Ao planejar o curso, o professor deve considerar o indivíduo. Um programa com finalidade de preparar a turma para a autonomia contempla vários estilos de aprendizado, personalidades e inteligências. É necessário ainda que todos participem das escolhas didáticas e se sintam motivados.

Para conhecer o que os alunos sabem, um instrumento útil é um questionário (ou entrevista) no início do curso com perguntas sobre como cada um aprendeu a língua até então, como gosta de estudar etc. Ao longo do ano, é preciso considerar as respostas nas tomadas de decisão.

Para trabalhar de acordo com essa visão e obter resultados satisfatórios, há que se pensar nos detalhes, como a organização do espaço físico. Como é organizada a sala, esperando que as decisões sejam fruto de uma reflexão? Digamos, por exemplo, que, para fazer uma produção oral, decidimos dividir a turma em duplas e pedimos que cada aluno se sente de frente para um colega - e não lado a lado, como é mais comum.

E, se tratando de produção oral, Christopher Humphris1 costuma dizer em cursos de formação: "Duas pessoas sentadas frente a frente com certeza vão conversar". E é isso o que queremos. A questão é que, na escola, a norma é se sentar em fila e não conversar enquanto o educador fala. No entanto, no caso do ensino de línguas é (ou deveria ser) diferente. Nesse sentido: "A organização espaço-temporal de qualquer interação verbal fornece frequentemente dados interessantes, se não até indispensáveis, para compreender o significado cultural e a dinâmica do falar como forma de agir socialmente. Um exemplo indicador da relevância da organização espacial para a interação é oferecido pela aula frontal, com a tradicional disposição das carteiras voltadas para o docente. Tal disposição reforça o modelo comunicativo escolar tradicional (autocrático e não cooperativo), em que o professor atribui o turno aos componentes da classe e é potencial interlocutor e destinatário de qualquer comunicação verbal por parte dos estudantes, enquanto não são encorajadas a interação e a colaboração dos alunos entre si" (CILIBERTI, 2006, p. 155, apud DURANTI, 1992, p. 48).


1 Professor, pesquisador e coordenador do Centro de Formação de Professores de Línguas Divulgação da Língua Italiana (DI.L.IT), em Roma, na Itália.

=== PARTE 2 ====

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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 268, Dezembro 2013/Janeiro 2014. Título original: o papel do aluno no processo de ensino e aprendizagem na disciplina de Língua Estrangeira
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