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Entrevista com Luis Carlos de Menezes

Entender que a ciência funciona à base de dúvidas é essencial para planejar boas aulas de Ciências e garantir a aprendizagem

Beatriz Vichessi

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Luis Carlos de Menezes. Foto: Manuela Novais
Luis Carlos de Menezes é docente do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e consultor da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco, sigla em inglês)

Embora os cientistas produzam a cada dia novos conhecimentos, hoje mais acessíveis à população em geral, os alunos não devem conhecer a ciência somente como um discurso pronto e imutável durante as aulas de Ciências. Quando isso ocorre, o direito de aprender é transformado em algo burocrático e o professor da disciplina desempenha o papel de simples transmissor de informações. Para Luis Carlos de Menezes, a escola tem de fazer mais: incentivar e permitir que os estudantes duvidem, perguntem e levantem hipóteses, ainda que provisórias e distantes da realidade. Assim eles vão se apropriar do conhecimento científico com consciência e não como uma lista de conceitos e fórmulas a ser decorada para a prova e esquecida logo em seguida.

Qual deve ser o propósito da disciplina de Ciências se o objetivo da escola não é formar cientistas?
LUIS CARLOS DE MENEZES Para pensar sobre o ensino, temos de levar em conta a vida dos alunos. Não só o vestibular, a futura profissão ou a serventia da ciência, o que seria muito pragmático. Realmente, o conhecimento científico pode ajudar as pessoas a cuidar da alimentação e do corpo, entre outras coisas. No entanto, aprender sobre a ciência é mais. É uma forma de aprofundamento cultural. Temos o direito de conhecer o mundo e entender como o universo científico o interpreta para tornar a nossa vida mais rica e nos apropriarmos do ambiente ao redor de maneira intensa. A escola precisa garantir tudo isso, mas não de forma impositiva, com a simples transmissão de informações. É necessário dar espaço para dúvidas. A ciência funciona à base de questionamentos, é impulsionada por perguntas. Certezas cabem às religiões. Na sala de aula, é preciso fazer a turma pensar, perguntar "Será que...?" e experimentar.

Qual é o espaço que as dúvidas devem ter nas aulas de Ciências?
MENEZES Não devemos despejar verdades incontestáveis na cabeça das crianças. Desde cedo, elas são capazes de levantar hipóteses e demonstram interesse sobre as coisas: como funcionam, de onde elas vêm. Se o professor se antecipa e fala "Isso não é assim", mata não só a curiosidade como também o direito do estudante ser curioso. Que sejam hipóteses fantasiosas, não há problema: o contato com outras ideias e experiências faz a criançada repensar suas ideias e avançar. A imaginação é essencial para a ciência. Ela estimula a criatividade e assim podemos intuir certas coisas, analisá-las e buscar verificações. Os alunos precisam aprender a pensar cientificamente e para isso têm de experimentar o mundo.

Com tantas informações disponíveis na internet, hoje acessada por muitas pessoas, o que a escola deve fazer para não ser encarada pelos jovens como algo inútil e ultrapassado?
MENEZES Primeiramente, ela não precisa competir com a internet. Se o fizer, vai perder. Isso é fato. A riqueza e a abrangência de um site de busca, por exemplo, são espantosas. Resultados da fronteira da ciência entram na casa das pessoas pela tela do computador. O ambiente escolar tem de fazer uso disso. A função da Educação é sistematizar, estruturar o conhecimento. O educador pode explicitar um princípio geral da Física, como a conservação da quantidade de movimento, e pedir que a turma acesse um determinado site e verifique algo, como vários eventos que comprovem o que dizem os cientistas.

=== PARTE 2 ====

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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 264, Agosto 2013. Título original: "Na sala de aula, é preciso fazer a turma pensar, perguntar 'Será que...?' e experimentar"
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