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O educador Tião Rocha fala sobre folclore e cultura popular

O antropólogo, educador e folclorista mineiro explica o que pode ser entendido por folclore e qual relação a escola pode ter com esse conjunto de saberes e expressões

Thais Gurgel

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TIÃO ROCHA. Foto: TIÃO ROCHA. Foto: arquivo pessoal
TIÃO ROCHA. Foto: arquivo pessoal

O educador Tião Rocha, fundador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, tem uma forma de se apresentar que já virou bordão: "antropólogo por formação, educador popular por opção política, folclorista por necessidade e mineiro por sorte." É, então, sobre a sua "necessidade" que nos interessamos na entrevista a seguir. Nela, discutimos o que pode ser entendido por folclore e a relação desse conjunto de saberes e expressões com o dia a dia da escola. Para ele, ainda há um salto a ser dado nessa área. "A escola não tem coragem de colocar o folclore na sua atividade básica", diz. "E com isso não se propõe a aprender a cultura das pessoas."

Como surgiram os estudos do folclore e com que viés foram produzidos os primeiros trabalhos na área no Brasil?
TIÃO ROCHA O termo folclore nasceu na Inglaterra praticamente junto com a Antropologia, na segunda metade do século 19 - época em que o Império Inglês vivia em plena expansão. Ao contrário do que fizeram os dominadores do século 16, que usaram seus mitos, por meio da cultura e da religião, para justificar a dominação das colônias, no século 19 recorreu-se à ciência para promover a aculturação. A Antropologia surgiu para estudar os povos chamados "primitivos" de fora da Europa. Mas os "primitivos" da Europa - camponeses e artesãos - também precisavam ser conhecidos, apreendidos e dominados. A palavra folclore surgiu, assim, para estudar os costumes e os valores dos povos que, dentro da lógica antropológica, eram cidadãos de segunda categoria. O sentido era tirar deles o que tinham e usá-los como instrumento de apropriação e dominação. Então, essa palavra traz consigo a característica de tomar o outro como desigual. No Brasil, os estudos de folclore começaram a ser realizados no início do século 20, e nossos intelectuais da época usaram isso como instrumento para estudar "os outros" - o estranho, o de longe, o da roça, o negro, o do meio do mato, o analfabeto. Todo esse ranço de discriminação infelizmente está aí até hoje.

O que ocorreu um pouco na contramão disso foi o movimento modernista de 1922. Ele propunha romper com a cultura européia e pensar na brasileira, partindo dos brasileiros, sem depender do controle externo. Além do desenvolvimento da pintura, da gravura e da música, a Semana de Arte Moderna também mostrou esse mergulho de procurar nas raízes da cultura brasileira o seu valor. Não mais no sentido do olhar sobre os desqualificados, mas buscando valores que pudessem se afirmar como uma nacionalidade brasileira. Esse movimento abriu perspectivas de estudos mais sistemáticos sobre cultura popular, que redundou em trabalhos como o de Luis da Câmara Cascudo, autor, entre outras obras, do Dicionário do Folclore Brasileiro, 1954 (Global Editora, 774 págs., 98 reais, tel. (11) 3277-7999), que já tem um sentido muito mais ligado à aprendizagem. A ideia desses folcloristas não era dominar, mas ainda trabalhavam sob a perspectiva do exótico, do diferente. Hoje já se pode dizer que há menos preconceito, mas infelizmente ele ainda existe. E as escolas continuam repetindo esse padrão.

Como podemos definir hoje o que é folclore?
TIÃO O que chamamos de folclore é a cultura popular tradicional, que se mantém pela tradição. As pessoas aprendem no fazer, dando resposta às suas necessidades. Imagine que um indivíduo teve uma necessidade de qualquer natureza: ele estava com fome, pegou uma fruta e comeu. Ele pôs na boca, porque achou que aquilo ia matar a sua fome. Com isso, descobriu muitas coisas: que tinha sabor, que era prazeroso, etc. Ou então que matava a fome, mas que dava dor de barriga. É ação e reação imediata. A partir de uma necessidade, ele precisa de uma resposta. Se essa resposta funcionou uma, duas, três vezes, você passa a usá-la. Isso chama-se uso. 'Eu uso isso quando tenho tal dor', por exemplo. Esse uso individual e rotineiro vai se constituir em um hábito. Quando isso sai do âmbito individual e vai para a coletividade da família, do grupo, esse hábito vira costume, porque deixou de ser uma resposta individual para ser do coletivo. As pessoas sabem que comer tal coisa funciona ou não, e repassam isso. Com o tempo, essas coisas vão sendo passadas e incorporadas e assim viram tradição. E a tradição não é algo do passado, é contemporânea, é o que você vê hoje, o que chegou aos dias atuais.

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Publicado em Agosto 2009.

 

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