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Charles Hadji: "É preciso apostar na inteligência dos alunos"

O pesquisador francês, especialista em avaliação, diz que só assim o professor consegue organizar suas aulas, limitar o número de erros e garantir que todos aprendam

Meire Cavalcate

Charles Hadji. Foto: Gustavo Lourenção
Charles Hadji

Tirar dos alunos o que neles há de melhor. Acreditar que, apesar das circunstâncias muitas vezes adversas em que vivem nossas crianças e jovens, todos podem progredir. É nessa visão otimista do papel da escola que se baseia o trabalho do educador francês Charles Hadji, professor do Departamento de Ciências da Educação da Universidade Pierre Mendès - France Grenoble 2. Grande pensador das questões filosóficas que permeiam o processo educativo, Hadji dedicou 20 anos de sua carreira à formação de professores do Ensino Fundamental. Seus mais recentes trabalhos estão focados no campo da avaliação e nos estudos sobre a influência da Neurobiologia e da Antropologia na Educação. Nesta entrevista, ele fala sobre como a escola pode interferir na relação que a criança tem com a família - relação essa muitas vezes prejudicial - e como organizar as práticas pedagógicas considerando o indivíduo, e não a média da turma. Para isso, ele ressalta que todos nós devemos ser humildes e reconhecer que não está totalmente sob o controle do educador o que e quanto os outros vão aprender. Segundo ele, tal pretensão beira o totalitarismo e a Educação, quando isso ocorre, perde seu sentido e cai em contradições éticas.

O que o senhor define por desenvolvimento positivo?
Charles Hadji
O desenvolvimento é algo um pouco contraditório: ao mesmo tempo que ao longo dos anos somos os mesmos, há mudanças que nos tornam pessoas diferentes. Essas mudanças podem ocorrer de forma positiva ou negativa. Assim, o desenvolvimento positivo corresponde àquilo que permite à pessoa tirar o melhor proveito de seu potencial.

Essas mudanças estão sempre relacionadas, no caso da escola e da família, às ações dos educadores?
Hadji
Há vários fatores que agem para facilitar ou contrariar o desenvolvimento, como o ambiente e os fatores sociais e econômicos. Porém o papel dos educadores é essencial. Não temos pesquisas que permitam apreciar realmente o peso de cada fator, mas eu diria que os mais importantes são o próprio indivíduo e a família. Cada pessoa, ao crescer e envelhecer, torna-se responsável por seu desenvolvimento e sua autonomia. Evoluir depende primeiramente de cada um de nós porque somos nós que temos o potencial. Posso dizer, ainda, que é na família que a Educação começa. É essa primeira relação que vai permitir o melhor proveito do potencial do indivíduo e fazer com que o desenvolvimento seja positivo ou não. Em terceiro lugar vem a escola. Ela entra em cena quando a articulação dos dois primeiros fatores já está bem avançada.

A escola pode intervir na ação da família sobre a criança?
Hadji Sim. Se essa relação tende a induzir o desenvolvimento negativo no aluno, a ação da escola será mais difícil, mas não impossível. Seu papel é permitir ao maior número de crianças o acesso a um meio positivo, em que elas possam errar sem ter medo e, assim, aprender, ou seja, fortalecer seu potencial. Isso permite ao aluno analisar o mundo, compreendê-lo e agir sobre ele. Se, por exemplo, uma criança foi maltratada ou não aprendeu a falar corretamente no seio familiar, ela pode, apesar de tudo, ter um desenvolvimento positivo. Basta a escola fazer bem seu papel.

Como organizar as aulas tendo em mente esse objetivo?
Hadji
Idealmente, é preciso organizar-se de modo a propor a cada aluno situações-problema que vão obrigá-lo a refletir, a inventar, a construir conceitos e novos modelos de comportamento. Essas situações devem ser adaptadas a cada um e estar apenas um tantinho acima do nível que eles sabem naquele momento para que os obstáculos lhes permitam ir além. Porém é preciso lembrar que muitos professores sofrem com o número de estudantes na sala de aula, que pode dificultar esse atendimento individual. Por isso, muitos procuram problemas médios, trabalham para o aluno médio e tentam organizar a classe em dois ou três grupos em torno de coisas médias. É preciso acreditar nas chances de cada aluno, propor exercícios realizáveis e cuja dificuldade seja adaptada ao nível dele e estar atento a seus sucessos e fracassos.

O que dizer aos professores que, em situações difíceis, acreditam não poder fazer mais nada?
Hadji
É preciso resistir à tentação de ditar ao professor o que ele deve fazer. Há diferença entre trabalhar na universidade, com estudantes que têm vontade de aprender, e trabalhar em uma classe na periferia, com alunos que rejeitam a escola. Pessoas como eu, os pesquisadores, devem ter humildade e compreender que não é conveniente dar lição de moral aos professores que estão na sala de aula. Na França, por exemplo, em certos colégios de periferia ensinar tornou-se missão impossível para alguns professores. Em novembro do ano passado, muitos jovens revoltados queimaram uma quantidade incalculável de carros. Nesses lugares há uma soma de dificuldades econômicas, sociais e escolares e a maioria dos alunos fracassa. Há a dificuldade de construção da identidade e de integração desses jovens na sociedade francesa, pois todos são filhos de imigrantes africanos. Em vez de dizer o que devem ou não fazer os professores que desistiram, prefiro falar dos educadores que continuam a acreditar e conseguem fazer progredir um número significativo de alunos. Resumo isso na seguinte frase: jamais tudo está perdido, mesmo quando é muito difícil.

O senhor fala que muitas vezes temos a ilusão de educar. Por quê?
Hadji
Refiro-me, entre outros, aos textos de Sigmund Freud e de psicanalistas que falam da ilusão educativo. A vítima dessa ilusão é aquele que não tem consciência dos limites de sua ação como educador, aquele que acredita ser o todo-poderoso. No sucesso educativo há algo de miraculoso. Nunca estaremos certos de quais serão os resultados. Não se deve querer educar demais sua esposa, seus filhos, seus próximos porque impor modos de ser e viver é um desvio totalitário. Em nome do quê vamos fazer essa imposição? Trata-se de uma questão ética. O tema da ilusão educativa é uma proteção contra o desvio totalitário. É um convite a tomar consciência dos limites da ação educativa e dos possíveis desvios de cada um. Como não ser vítima dessa ilusão? Primeiramente, sabendo que não detemos a verdade educativa. Minha filha, por exemplo, era muito boa aluna. Eu gostaria muito que ela entrasse na Escola Normal Superior. Esse era meu plano para ela. Mas não era o plano dela. Ela fez outra coisa. Se eu tivesse insistido, imposto um modelo de sucesso, eu seria vítima da ilusão do pleno poder. Ao mesmo tempo, é claro que não devemos nos contentar com o que os outros são num determinado momento, mas querer sempre que eles façam seu melhor, mesmo que isso não seja o que eu, pessoalmente, gostaria que fosse.

O que o senhor entende por um ser humano educado?
Hadji
É quem teve a sorte de encontrar as circunstâncias e as pessoas que lhe permitiram tirar o melhor proveito de suas potencialidades. E que, graças a isso, vai saber em qualquer situação respeitar os outros. Este é o critério para saber se a Educação foi bem-sucedida: como o respeito se manifesta na relação com o outro.

O mesmo vale para a Educação de adultos?
Hadji
Podemos distinguir três grandes atividades educativas: Educação, ensino e formação. A Educação está centrada nos valores e, por isso, a ação da família é essencialmente educativa. Ensinar é estimular a aprendizagem em torno das disciplinas escolares (e aqui o currículo é fundamental). A formação está orientada no sentido do domínio de competências profissionais e sociais (pertence a centros especializados e escolas profissionais). A dificuldade é a seguinte: do que estamos falando quando o assunto é o adulto? Queremos educá-lo ou formá-lo? Não podemos deixar de lado o problema da formação, pois há a necessidade primordial de aquisição de competências profissionais. Mas essa formação pode exigir também um espaço para o educar, pois os adultos precisam ser orientados para os valores e a aprendizagem da cidadania.

Considerando a cultura, a história e o contexto social em que vivem os alunos, como definir o que é importante ensinar?
Hadji
É preciso permitir que todos os alunos se apropriem do percurso científico. Isso é indiscutível. Mas qualificar essa dimensão cultural é uma dificuldade. O que é mais elevado culturalmente? Será que temos o direito de impor a arte burguesa a todas as crianças de um país? Essa é uma boa questão, para a qual eu não tenho resposta. O que posso dizer é que todas têm o direito de possuir instrumentos para interpretar o fenômeno artístico, qualquer que seja sua forma. Na França, será que temos o direito de impor às crianças de origem árabe o aprendizado de autores franceses como Racine e Corneille? Ou devemos oferecer coisas úteis e que têm presença na vida dos alunos? Acho que os dois. É preciso sempre ter como fim a preocupação com a formação. É preciso qualificá-los para que, no futuro, possam trabalhar. Eles precisarão saber o que todos sabem, pois são herdeiros culturais da humanidade. Se moramos num país de língua francesa, é indispensável e enriquecedor conhecer os autores clássicos que melhor utilizaram e fizeram florescer essa língua.

Qual é a importância do erro na escola e como o professor o utiliza em sala de aula?
Hadji
Para que o aluno aprenda, é preciso aceitar que ele erre. Mas o papel da escola e do professor é evitar erros inúteis. O importante é fazer com que os alunos confiem em sua capacidade de desenvolvimento positivo, tornando-os progressivamente senhores de seu desenvolvimento. Isso é a conquista da autonomia. O erro não deve ser considerado uma falha, mas algo que tem sentido e pode ajudar a ensinar. Ele é um indicador de como o aluno raciocina. O professor pode se organizar para que todos façam o menor número de erros possível escolhendo bem as situações de aprendizagem, com níveis de dificuldade coerentes com a capacidade da turma. Ao ensinar a criança a nadar, por exemplo, não podemos levá-la ao mar bravo. É quase certo que ela terminará por afundar e se engasgar. E ainda vamos dizer: "Infeliz! Não é assim que se faz!" Essa criança deve começar suas aulas numa piscina. A piscina é a escola. É um meio que protege, mas que assim mesmo traz a dificuldade essencial, que é a água. Os erros, como afundar ou engasgar, são naturais. Mas com o tempo ela passará a mergulhar de cabeça, boiar, nadar...

Muitas escolas parecem preferir se comportar como o mar bravo.
Hadji
Sim, isso ocorre com freqüência, quando os professores oferecem situações não organizadas. Mar bravo é o professor que impõe as mesmas coisas a todos, aquele que se recusa a ver o nível real de cada um e se fixa só no programa. Assim, ele condena a turma a nadar em mar aberto. O professor deve ser um organizador, que vai limitar as dificuldades e, em conseqüência, reduzir os erros, permitindo aos alunos fazer sempre tentativas inteligentes que lhes permitirão realmente aprender. Isso ocorre quando há uma dificuldade a superar que não é insuperável. Do contrário, o estudante fica numa situação de fracasso humilhante. O professor inteligente é aquele que confia na inteligência de cada um em sua turma.

 

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Bibliografia 
Avaliação Desmistificada
, Charles Hadji, 136 págs., Ed. Artmed, tel. (51) 3027-7000, 34 reais 
Pensar e Agir a Educação, Charles Hadji, 160 págs., Ed. Artmed, 34 reais 


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Entrevistas com especialistas de diversas áreas, organizadas por ordem alfabética de sobrenome

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Publicado em NOVA ESCOLAEdição 198, Dezembro 2006,

 

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