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Belinda Mandelbaum fala sobre estrutura familiar e aprendizagem

Para a pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), não há o modelo ideal. Um lar com pai e mãe não é garantia de atenção à criança

Cinthia Rodrigues

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=== PARTE 1 ====

É bem provável que você já tenha lido ou ouvido alguém em sua escola dizer que determinado aluno não aprende porque vem de uma família desestruturada. A ideia, extremamente preconceituosa, deve ser deixada de lado na opinião da psicanalista Belinda Mandelbaum, docente e coordenadora do Laboratório de Estudos da Família, Relações de Gênero e Sexualidade do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Ela defende que pais separados, casais homossexuais, mães solteiras, avós responsáveis por netos e tantas outras configurações compõem núcleos que podem até fugir do idealizado pela sociedade, mas têm plenas condições de obter sucesso na Educação de crianças e jovens sob sua responsabilidade. Para isso, é importante a colaboração do professor no sentido de combater os estigmas.

"Nunca houve um modelo definitivo de família. Ela muda constantemente com a sociedade", afirma Belinda. Para a especialista, o essencial é o estudante ter em casa alguém que exerça os papéis materno e paterno - mesmo que seja uma pessoa só. Os educadores que compreendem essa realidade melhoram o relacionamento da escola com os responsáveis, são capazes de fazer os estudantes se sentirem acolhidos e ainda aprendem a identificar os verdadeiros problemas que os afetam. "É necessário saber o que angustia de fato a criança. E isso só ocorre se for estabelecido um diálogo honesto e livre de preconceito entre os envolvidos na Educação dela."

A estrutura familiar mudou?
BELINDA MANDELBAUM
Ela se transforma continuamente durante a história para acompanhar as alterações sociais, econômicas e culturais. Muitos fatores afetam sua configuração, a forma de seus membros se relacionarem e seu modo de ser e de educar os filhos. Nunca houve um modelo definitivo, principalmente na cultura ocidental.

Na nossa sociedade, o que tem influenciado essa evolução?
BELINDA
A situação econômica, por exemplo. Anos atrás, após um período de forte desemprego, muitas famílias de composição nuclear - pai, mãe e filhos que habitam uma unidade doméstica independente - perderam a renda e se mudaram para a casa dos avós. No fim dos anos 1990, os aposentados foram os principais provedores em muitas casas, inclusive as de classe média. Ampliou-se assim uma formação frequente nas camadas mais pobres, em que alguém tem um terreno em que são construídos puxados conforme os filhos vão se casando e todos convivem lado a lado. Às vezes, uma das mães é responsável por olhar todas as crianças enquanto as outras trabalham. Isso funciona.

Levando em conta essas mudanças e configurações cada vez mais comuns hoje em dia - como mães sozinhas e casais homossexuais -, faz sentido falar em família desestruturada?
BELINDA
Uma coisa não tem a ver com a outra. Não podemos confundir o que foge do estereótipo do lar perfeito mostrado em comerciais de TV com uma família desestruturada. Essa condição não tem a ver com a composição nuclear. É preciso sair da questão biológica e atentar para as funções originalmente determinadas como paterna e materna, mas que podem ser exercidas por outras pessoas. O papel da mãe seria de acolhimento para criar o sentimento de confiança, fundamental para o desenvolvimento e, portanto, para a capacidade de aprendizado. O do pai, teoricamente, seria exercer a autoridade, colocar limites, mostrar que há regras a respeitar. Não é necessário ser o pai e a mãe biológicos para fazer isso. Outros adultos podem ter uma dessas atribuições, como o avô e a madrasta. Por outro lado, pode haver pai, mãe e filhos dentro de uma casa e ela ser uma catástrofe, em que ocorrem situações de abuso ou de falta de limite.

=== PARTE 2 ====
=== PARTE 3 ====

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Laura Moura Dias - Postado em 31/08/2010 14:48:17

Como Pedagoga do Conselho Tutelar, estou sempre em contato com escola e com família e pessoas responsáveis pela criança ou adolescente e percebe grande despreparo dos familiares e também da escola e o tempo passa criança e adolescente cresce sem o mínimo necessário para sua vivência e sobrevivência.Existe algum meio de ajudá-los para a mudança deste triste cenário?

Comentário do Autor - Olá, Laura. Creio que instituições como o conselho tutelar e a escola podem - e seria bem interessante que o fizessem juntos - organizar atividades, como fóruns de debates, para discutir com todos os responsáveis pela infância e a juventude temas como este. Não seria interessante para todos um espaço em que se apresentasse, por exemplo, dados atuais sobre as novas configurações familiares no Brasil (o IBGE tem estes dados) para, em seguida, discutir as repercussões, na comunidade, destas novas configurações, e as questões envolvendo estigma e discriminação que afetam nossas crianças e jovens? Abraços, Belinda

Maria das Merces de Melo - Postado em 15/08/2010 00:23:27

Essa entrevista é muito importante sobre a estrutura familiar.Como educadora vejo muito desajusto na formação das familias de hoje, não me refiro só a família de classe pobre ,mas também de classe com o nivel econômico e social estável ,onde a criança chega a escola desnorteada sem saber a que normas seguir e por sua vez ,a escola torna-se responsável em assumir esse papel fungindo totalmente da sua função que é o ensino-aprendizagem,enquanto a família está se omitido da sua responsabilidade , pois já encontraram a solução do problema da criança não ter um rendimento escolar ,o culpado é o educador a escola que prepare para a vida quando esse educando é bem sucedido na aprendizagem, é a familia que recebe o mérito.

Comentário do Autor - Maria, penso que é preciso que nos conscientizemos de uma responsabilidade coletiva em relação às crianças. A escola, mesmo que considere que sua função é de ensino exclusivamente, transmite modelos, atitudes, uma ética, sabendo ou não disto. Por isto, a escola deve ampliar a sua consciência sobre aquilo que está transmitindo no dia-a-dia das suas relações. A melhoria da parceria família-escola trará mérito e reconhecimento para todos s envolvidos. Um abraço Belinda

helem tatiane pereira santos - Postado em 12/08/2010 23:33:14

Otima reportagem! o momento em que estamos passando de mudanças na estrutura familiar, é preciso que nós educadores tratemos desse assunto de maneira natural como sugere a belinda.

Publicado em NOVA ESCOLAEdição 234, Agosto 2010, com o título "É hora de rever o conceito de família desestruturada"

 

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