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Para ensinar, não é necessário reprovar, reprovar e reprovar

Se bem organizados, os ciclos de aprendizagem garantem a construção de saberes. Vale analisar o que ocorre na prática

Paula Peres (apuração). Editado por Elisa Meirelles. Colaborou Valentina Oliveira

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Para ensinar, não é necessário reprovar, reprovar e reprovar. Ilustração: Benett

Atualmente, no Brasil, 24 capitais, 16 estados e o Distrito Federal adotam em suas redes de ensino algum tipo de progressão continuada na passagem entre uma série e outra. O que é isso? É aquele sistema aplicado em redes que não têm reprovação escolar anual. Com frequência, a progressão é associada ao sucateamento da Educação pública e à ideia de que, atualmente, as crianças não precisam se dedicar, pois serão aprovadas de forma automática. Mas o que está por trás dessa proposta, adotada na maioria das redes?

Para falar sobre progressão, primeiro é preciso entender o que é o sistema seriado. Ele tem como fundamento a ideia de o currículo escolar ser pensado segundo um fluxo determinado, de tal maneira que o estudante precisa ser aprovado em um ano letivo para cursar o seguinte. Esse modelo dá papel central à avaliação, uma vez que ela autoriza o aluno a progredir ou não nos estudos, podendo ficar retido.

Altas taxas de reprovação e evasão começaram a ser observadas no Brasil e iniciou-se uma discussão sobre novas formas de organizar a vida escolar das crianças, sem impedi-las de avançar. Surgiu então a progressão continuada, vista como solução à repetência. O modelo começou a ser implantado em diferentes anos em cada rede.

A ideia era que ele fosse aliado a uma nova organização do ensino, não mais pensado em séries, mas em ciclos de aprendizagem. Em vez de criar unidades divididas em anos letivos, conteúdo, turmas e professores teriam de ser reorganizados em um período maior de ensino e aprendizagem, de dois, três ou quatro anos. A proposta respeitaria o tempo de desenvolvimento de cada estudante, uma vez que indivíduos com idades semelhantes não necessariamente assimilam a mesma quantidade de informação em um ano. Na passagem de um ciclo para outro, poderia ocorrer a aprovação ou a reprovação, de acordo com o desempenho.

É comum entender a progressão continuada como sinônimo dos ciclos de aprendizagem, já que as duas propostas costumam ser implantadas em conjunto pelas secretarias de Educação. E é aí que reside o problema. Em alguns casos, o que recebe o nome de ciclos de aprendizagem nada mais é do que a reunião de algumas séries em grupos distintos, com aprovação automática entre elas. É importante, então, diferenciar as duas propostas: a progressão sugere um processo educativo contínuo e se contrapõe às reprovações, enquanto os ciclos dizem respeito à maneira de organizar o ensino, contrapondo-se ao tradicional sistema seriado. Para que os ciclos funcionem, é preciso haver uma reestruturação completa do currículo escolar, fazendo com que os processos educativos atendam às demandas de aprendizagem dos alunos em cada etapa maior.

Diferentes modelos de organização

No Brasil, encontramos sistemas que aplicam o ciclo somente na fase da alfabetização inicial (do 1º ao 3º ano), outros organizam todo o Ensino Fundamental em três blocos, muitos têm os anos iniciais em ciclos e os finais em séries, e outros contam com características específicas, como classes multisseriadas. Em geral, na troca entre um ciclo e outro, é adotada a reprovação. Atualmente, 11 redes estaduais e as municipais das capitais Rio de Janeiro e Rio Branco não adotam qualquer forma de progressão em suas escolas, ainda que a Rio Branco tenha regras diferenciadas para as escolas rurais (veja no mapa abaixo quais redes têm sistema de ciclos em uma ou mais etapas de ensino).

Redes que adotam os ciclos no período de alfabetização argumentam que cada criança tem o seu tempo de aprendizagem da leitura e da escrita, e condicioná-lo somente a um ano letivo seria injusto, visto que não aprender a ler e escrever impacta diretamente no futuro escolar. Quando se trata de idades menores, um ano faz bastante diferença no desenvolvimento. Se o aluno fica retido no 1º ano, perde a oportunidade de progredir com colegas da mesma faixa etária, o que é prejudicial especialmente nesta etapa.

Organização das redes
Estados com algum sistema de progressão

Estados com algum sistema de progressão

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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 276, Outubro 2014.
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