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Tudo é brinquedo

Objetos do dia a dia e sucata servem de estímulo para o faz de conta nas salas de até 3 anos. A imaginação dos pequenos cria o resto

Rodrigo Ratier, de Ariquemes, RO

Foto: Rodrigo Ratier
REIS DO PEDAÇO A turma de 2 anos do CMEI Criança Feliz reorganiza a sala e inventa usos para os móveis feitos de papelão. 
Foto: Rodrigo Ratier

Uma linha completa de móveis adaptados ao tamanho da turma de 2 anos compõe um dos cantos da sala da professora Dilse Lopes Monteiro, do CMEI Criança Feliz, em Ariquemes, a 199 quilômetros de Porto Velho. As graciosas peças, todas de sucata, foram produzidas na própria escola. "Utilizamos garrafas descartáveis, caixas e papel colorido para construir armários, cadeiras, pia e fogão. Em um fim de semana, fizemos material para o ano todo", conta ela.

Além de usar matéria-prima barata, a divertida mobília tem uma vantagem extra: é bastante simples de ser reaproveitada. "Algumas tampas de refrigerante e papéis coloridos transformam um armário numa televisão", exemplifica Dilse. 

Numa tarde em que NOVA ESCOLA acompanhou o trabalho da turma, os pequenos eram mesmo os donos da festa. Eles mudaram a arrumação proposta pela professora, arrastando os móveis da sala e criando uma tendinha menor, mais acolhedora. Também deram novo significado a alguns itens: o forninho, por exemplo, virou dormitório para os bichos de pelúcia.

Isso acontece porque, para as crianças, tudo é brinquedo. Objetos simples passam a ter significados que nós, adultos, nem sonhamos. "A mesa da classe pode virar um navio pirata. Basta colocá-la virada ao contrário no chão e amarrar um cabo de vassoura a um dos pés para fazer as vezes de mastro. Ignoramos essas relações que a garotada estabelece e oferecemos apenas brinquedos industrializados, esquecendo a riqueza potencial de outros materiais", diz a consultora de Educação Infantil Adriana Klisys.


Durante os cursos de formação que ministra, Adriana ilustra a incrível capacidade imaginativa com a seguinte cena: duas crianças estavam sentadas num enorme banco de madeira e intrigavam a professora. O comportamento delas era no mínimo curioso. Os pequenos colocavam um fogãozinho em cima do banco, sussurravam alguma coisa um para o outro e o recolocavam no chão. Repetiam o procedimento várias e várias vezes. Resistindo ao ímpeto de perguntar logo de cara do que estavam brincando, a professora se aproximou. Observou um pouco e entendeu: a dupla estava fazendo um carreto. Aos olhos infantis, aquele fogãozinho tinha se transformado na carga e o banco, no caminhão.

Virando "gente grande" 

De fato, o mundo representativo e simbólico é típico dessa faixa etária. Na creche e na pré-escola, dos 2 aos 5 anos, jogos e brincadeiras são a principal atividade no desenvolvimento do psiquismo infantil. O assunto foi bem estudado pelo psicólogo russo Alexei Leontiev (1903-1979), um dos mais próximos colaboradores de Lev Vygotsky (1896-1934), pioneiro em relacionar a evolução intelectual às interações sociais. No livro Linguagem, Desenvolvimento e Aprendizagem, Leontiev explica que é por meio das brincadeiras que a criança toma posse do mundo concreto dos adultos. No plano da imaginação, os pequenos realizam as tarefas de "gente grande" que vêem no dia a dia. Assim, dão conta de coisas que, na vida real, ainda não conseguem fazer.

A escola pode e deve alimentar esse saudável apetite de faz de conta infantil. Cabe aos professores usar a criatividade para oferecer diferentes contextos e oportunidades de ampliar a fantasia. Nesse sentido, brincadeira se ensina, ao contrário do que muitos pensam (leia o plano de trabalho com sugestões para desenvolver essa capacidade).

A professora dos "caminhoneiros", por exemplo, aproveitou a observação cuidadosa para embarcar na viagem dos pequenos. Surgiu com folhas de jornal, uma caixa de papelão e retalhos de madeira na mão e sugeriu: "Gente, vamos embalar as mercadorias para que elas não se quebrem?" Assim, expandiu as possibilidades imaginativas da turma e, por um breve momento, experimentou a alegria de voltar a ser criança.

 

Quer saber mais?

CONTATOS
Adriana Klisys
CMEI Criança Feliz
, R. Elis Regina, s/nº, bloco B, 78932-470, Ariquemes, RO, tel. (69) 3536-5732

BIBLIOGRAFIA
Creches: Crianças, Faz-de-conta & Cia.
, Zilma de Moraes Oliveira, 128 págs., Ed. Vozes, tel. (24) 2233-9000, 24,10 reais
Linguagem, Desenvolvimento e Aprendizagem, Lev Vygotsky, Alexander Luria e Alexei Leontiev, 232 págs., Ed. Ícone, tel. (11) 3392-7771, 29 reais

INTERNET
Veja aqui sugestões de jogos e brincadeiras

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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 214, Agosto 2008.

 

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