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Entrevista com Manuel Sarmento

"Os pequenos nos dizem muito sobre a sociedade"

Elisangela Fernandes, de São Carlos, SP

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=== PARTE 1 ====
Manuel Sarmento. Foto: Calil Neto
Manuel Sarmento Graduado em Estudos Portugueses, mestre em Administração Escolar e doutor em Educação da Criança, é docente do Departamento de Ciências Sociais da Educação e diretor do Instituto de Educação, ambos da Universidade do Minho, em Portugal

De acordo com Manuel Sarmento, a criança é um pequeno cidadão, mas não é um cidadão menor. Essa foi uma das ideias que ele defendeu ao participar do II Seminário Internacional: Sociologia da Infância, realizado na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em maio. Considerado um dos principais nomes da Sociologia da Infância do mundo contemporâneo, o pesquisador reconhece esse sujeito como um ator social, pleno e integrado à sociedade e, acima de tudo, produtor de cultura.

Em entrevista à NOVA ESCOLA, Sarmento explica como a Psicologia do Desenvolvimento reforça a ideia equivocada de que as pessoas, quando crianças, são incompletas e ainda estão em formação. De acordo com o educador, elas desempenham diferentes papéis sociais, entre eles o de aluno. Por isso, a escola, em especial durante a Educação Infantil, precisa ser um espaço que não só valorize seus saberes como garanta a oportunidade para o exercício pleno de seus direitos.

Como definir o que é criança?
MANUEL SARMENTO Existem duas concepções que emergiram a partir do Renascimento e se distinguiram com mais clareza no século 18. A primeira, mais disciplinadora, diz que ela é um ser que precisa ser cuidado, educado e, de alguma forma, moldado para se tornar um adulto moralmente competente e com conhecimento para agir em sociedade. A segunda, mais romântica, defende que ela seja pensada como um ser em desenvolvimento, que demanda proteção de qualquer efeito funesto da sociedade porque é naturalmente boa e inocente. A partir da década de 1980, a Sociologia da Infância propõe mais uma alternativa de definição e começa a pensar os pequenos em si próprios, como seres humanos densos e plenos, que não estão em fase de integração e inclusão, defendendo que vivem plenamente integrados à sociedade. Eles são capazes de refletir e expressar as contradições sociais pelo seu modo de ver o mundo.

A Psicologia do Desenvolvimento contribui para reforçar a ideia de a infância ser uma fase de construção do sujeito?
SARMENTO Sim. A maioria dos estudiosos e seguidores dessa área pensa a infância como um período de transição, um processo progressivo que se realiza por etapas ou fases de desenvolvimento de caráter universal. No entanto, é importante ressaltar que muitos psicólogos da linha criticam essa visão linear e pensam a criança em seu contexto cultural. Por isso, creio que hoje deixou de fazer sentido a crítica da Sociologia da Infância à Psicologia do Desenvolvimento por si só. O que temos de pensar daqui em diante é quais são as teorias que estudam o indivíduo e seus processos psicológicos, quais investigam uma categoria social e seus processos sociais e articulá-las de forma que haja um diálogo interdisciplinar competente para compreender o desenvolvimento infantil.

Hoje em dia existe menos tempo e espaço no mundo para ser criança?
SARMENTO Para responder a essa questão temos de analisar as condições de vida dos pequenos na contemporaneidade e considerar de que maneira a sociedade se organiza para regular o espaço e o tempo deles. Atualmente, a criança passa a maior parte do dia em instituições, sob o controle de adultos e a circulação no espaço ficou mais restrita. Isso é muito marcante em nossa época. Ela raramente está na rua e o deslocamento ocorre entre ilhas: se não está em casa, está na escola, por exemplo. Ainda que circule por diferentes lugares, não se apropria da cidade, pois está sempre confinada. É importante dizer que sob esse aspecto, curiosamente, os pequenos dos meios populares são os que têm maior autonomia. O que é altamente paradoxal, pois isso decorre da privação e não da garantia de direitos. Ao mesmo tempo, é grande o impacto da difusão da indústria cultural, que se desenvolveu exponencialmente. Tudo isso tornou as crianças mais dependentes de produtos elaborados pelos adultos no que se refere às práticas lúdicas, como o brincar. Claramente aí está uma diferença em relação ao passado. Antes, elas tinham de improvisar para construir seus brinquedos e com eles gerar as brincadeiras. Atualmente, isso acontece bem menos. Há mais jogos, incluindo os eletrônicos, e esse é outro paradoxo, pois nesse caso as regras já são determinadas, ao contrário do que se dá nas brincadeiras, em que a criança que brinca é a autora do ponto de vista simbólico.

=== PARTE 2 ====

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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 265, Setembro 2013. Título original: "Os pequenos nos dizem muito sobre a sociedade"
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