publicidade

Meio ambiente - De perto é bem mais fácil

Seus alunos se transformam em pesquisadores no contato planejado com a natureza e percebem que ela não é apenas um capítulo do livro didático

Meire Cavalcante

Ao manusear a bússola, uma novidade para muitos, os alunos aprendem conceitos de orientação geográfica. Foto: Daniel Aratangy
Ao manusear a bússola, uma 
novidade para muitos, 
os alunos aprendem conceitos 
de orientação geográfica. 
Foto: Daniel Aratangy

Foi um espanto quando as crianças experimentaram a água do mar. "É salgada mesmo!", gritaram. "Mas por quê? De onde vem o sal?" E quando chegaram ao mangue: "Por que a terra é tão escura?" Essas e muitas outras perguntas relativas ao meio ambiente inquietaram, no ano que passou, as classes de 4ª série da rede municipal de ensino de Embu, na Grande São Paulo. A agitação científica foi planejada e as dúvidas tornaram-se o combustível de um extenso projeto, realizado de abril a dezembro.

A base dos trabalhos foram dados reais, coletados em diferentes ecossistemas no município e no litoral. Ao analisá-los e compará-los, as turmas puderam chegar a preciosas conclusões. Uma delas dizia respeito à extraordinária capacidade da natureza de se adaptar às agressões da poluição.

Esse jeito diferente e eficiente de estudar Ciências envolveu o incentivo à investigação, o estímulo ao questionamento, a utilização de recursos além do livro didático e a realização de atividades fora da sala de aula. Tantas novidades só tiveram espaço nas escolas depois de o corpo docente passar por uma capacitação e mudar a forma de encarar o ensino da disciplina.

Em parceria com o Instituto Ciência Hoje, que deu o suporte técnico e pedagógico ao projeto, a prefeitura organizou um curso de formação para toda a equipe, antes de envolver a meninada na investigação científica.

Terminados os encontros de capacitação, cada professor planejou aulas em locais diferentes. Primeiro ao redor de sua escola. Em um trecho de mata, num lago ou na beira de um córrego, foram organizadas atividades de observação e registro de dados. Os alunos demarcaram áreas em quadrantes, texturizaram folhas e mediram as condições locais, como temperatura e umidade relativa do ar. Para isso, utilizaram instrumentos bastante simples.

A idéia dos educadores era sempre a de levar a garotada a se enxergar, desde cedo, como parte do meio ambiente. Antes de sair da sala e durante as pesquisas de campo, os professores estimularam nas turmas a formulação de dúvidas sobre fatos da natureza observados ao vivo. No retorno para a escola, os alunos fizeram outras experiências e esclareceram parte das questões com pesquisas em livros, sites e na revista Ciência Hoje das Crianças, editada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Em casos mais específicos, especialistas foram entrevistados.

 

Primeiros estudos pelo bairro

Já nas primeiras atividades, os estudantes da Escola Astrogilda de Abreu Sevilha perceberam, por exemplo, que a terra de Embu é avermelhada. Nas próximas aulas-passeio, coletaram amostras do solo para fazer comparações. "Atividades desse tipo exigem conhecimento profundo do que vai ser analisado e muita pesquisa", explica a psicopedagoga Maria Del Carmen, consultora educacional do Instituto Ciência Hoje. "Esse processo é muito rico e não se aprende nos livros."

A turma da Escola Antônia Augusta Delphina de Moraes observou em uma das visitas que havia plantas aquáticas na beira de um lago. "Eram tantas folhinhas que parecia um campo. A gente quase correu para cima delas, achando que era terra firme", lembra a aluna Talita Feliciano dos Santos. Para descobrir por que aquela vegetação cresce assim, o grupo entrevistou uma botânica. Ela explicou que a planta se alimenta da matéria orgânica presente na água suja. Na escola, mudas coletadas no lago foram colocadas em dois recipientes, um com a água do próprio lago e outra com a da torneira. Na água limpa, as plantas logo morreram.

Já os alunos da Escola Jornalista José Ramos, numa das regiões mais populosas do município, verificaram que o local onde vivem, antes coberto por mata, está degradado. Numa volta pelo bairro, notaram em um terreno baldio o descaso da população com o descarte do lixo e iniciaram pesquisas sobre o tema. A consolidação dos conteúdos veio a seguir.

A criançada monta um quadrante, fixando quatro palitos ligados por um barbante, e anota as ocorrências de biodiversidade dentro da área. Foto: Daniel Aratangy
A criançada monta um quadrante, 
fixando quatro palitos ligados 
por um barbante, e anota as 
ocorrências de biodiversidade 
dentro da área. 
Foto: Daniel Aratangy
Para medir a umidade, os alunos fixam um algodão seco na ponta do termômetro e medem a temperatura. Depois, repetem o procedimento, mas com algodão úmido. A diferença entre os valores é localizada em uma tabela que indica a umidade relativa do ar. Foto: Daniel Aratangy
Para medir a umidade, os 
alunos fixam um algodão seco 
na ponta do termômetro e 
medem a temperatura. Depois, 
repetem o procedimento, mas 
com algodão úmido. A diferença 
entre os valores é localizada 
em uma tabela que indica 
a umidade relativa do ar. 
Foto: Daniel Aratangy

Locais diferentes, problemas interligados

Com o espírito de investigação já incorporado, o grupo se viu preparado para a última fase de levantamento de dados. Todos passaram um dia no litoral paulista, onde cada turma visitou um destino diferente: o Horto Municipal de São Vicente; o Parque Estadual da Serra do Mar, a reserva florestal e o manguezal do Parque Cotia-Pará, em Cubatão; e o Museu de Pesca e o Aquário, em Santos.

"Apesar da euforia, ninguém assumiu a viagem apenas como lazer porque havia vários problemas para solucionar, comparações a fazer e conclusões a tirar", afirma Maria Del Carmen. "Ao mesmo tempo, em nada se reprimiu a brincadeira, prazer necessário a quem está aprendendo." A coordenadora ressalta que a comparação de dados levantados lá e cá de nada vale se não houver conclusões. É preciso descobrir os porquês. E foi o que as turmas de 4ª série fizeram.

Os visitantes da mata, no Parque da Serra do Mar, verificaram que a floresta fechada retém umidade. Comparando com os dados coletados anteriormente, viram que na cidade o índice era menor devido ao desmatamento. Alguns trouxeram ao grupo a informação de que a floresta no litoral tinha uma biodiversidade muito maior do que na cidade.

De volta à escola, eles decidiram juntar material reciclável e trocá-lo por mudas que vêm sendo plantadas para aumentar a área verde do município. Quando soube que alguns fungos mudam de cor de acordo com o nível de poluição, o grupo relacionou a informação ao caso das plantas aquáticas, que se aproveitam dos nutrientes da água suja.

Em um quadrante demarcado na praia, outra equipe encontrou um caco de vidro e rapidamente conectou esse dado ao lixo observado em Embu. Concluiu que o descaso era o mesmo. A constatação abriu espaço para debates sobre consumo consciente, reciclagem e descarte do lixo. E o projeto de coleta seletiva, que já vinha sendo implantado em toda a rede, ganhou impulso. Na praia, os estudantes realizaram os últimos levantamentos e, é claro, se divertiram à beça. "Na volta, foi interessante ver o entusiasmo em partilhar as experiências com os colegas", lembra Lídia Balsi, coordenadora da equipe pedagógica da Secretaria de Educação de Embu.

Avaliação individual e coletiva

Os professores fizeram relatórios individuais e coletivos sobre o desempenho dos alunos em cada atividade. Neles, registravam o interesse, o cumprimento de tarefas, a participação no grupo e a assimilação dos conteúdos. Nas reuniões pedagógicas, trocavam essas informações e buscavam estratégias para melhorar o trabalho. Os alunos, por sua vez, produziram portfólios individuais. Como as turmas visitaram ambientes diferentes, o conhecimento foi compartilhado na escola, na forma de quadros comparativos, gráficos, tabelas e também por meio de relatos orais. A interação melhorou o relacionamento entre os colegas e estimulou a leitura e a escrita. A avaliação se concretizou nas feiras de ciências e no encontro entre todos os grupos no final do ano.

O professor também aprende

Para mudar a cara do ensino de Ciências, os professores da rede municipal de Embu participaram de oito encontros que somaram 48 horas, oferecidos pela prefeitura e organizados pelo Instituto Ciência Hoje, da SBPC. A orientação trazida à equipe docente pelo Instituto teve como foco a mudança na abordagem tradicional do ensino, no qual conteúdos fragmentados são vistos muitas vezes sem que sejam feitas as devidas conexões, obedecendo somente à seqüência do livro didático. Dia a dia, esse novo conceito se revela em atividades que despertam a capacidade de selecionar e de organizar a informação; de trabalhar a pesquisa centrada em interesses socialmente relevantes; e de explorar os conteúdos em atividades práticas. Para agir assim, um caminho natural é elaborar projetos que levem à solução de problemas formulados pelos próprios alunos. "Nosso objetivo com o curso era fazer com que o professor somasse sua experiência a outras estratégias de ensino. Demos a ele novas ferramentas", explica Maria Del Carmen, do Instituto Ciência Hoje. Durante os encontros, foram reproduzidas todas as situações que mais tarde seriam propostas às classes, inclusive as pesquisas na praia e no mangue. "Pude sentir o cheiro do ambiente, observar alguns animais", conta a professora Ivani Fernandes Melo. Ela ressalta que aprendeu a utilizar instrumentos como a bússola para depois ensinar a turma. Já a professora Marinalva de Lima afirma que nunca tinha pensado em usar lupa ou termômetro nas aulas: "Por comodismo, me baseava no livro e não sabia da importância de ligar seu conteúdo ao mundo lá fora".

Kit básico é bastante acessível

Foto: Daniel Aratangy
Foto: Daniel Aratangy

Não tem desculpa: para um bom ensino de Ciências não é preciso um superlaboratório, com equipamentos avançados e caros. Esse projeto mostra que com instrumentos simples e baratos aprende-se muito. O Instituto Ciência Hoje distribuiu a cada grupo de cinco crianças um kit científico com bússola, lupa, termômetro, algodão, palitos de churrasco, barbante, caneta, lápis e giz de cera. Cada aluno ficou encarregado de produzir o seu bloquinho de anotações. O equipamento todo pode ser adquirido por valores que variam de 10 a 60 reais.

Quer saber mais?

Instituto Ciência Hoje, Av. Venceslau Brás, 71, casa 27, 22290-140, Rio de Janeiro, RJ, tel. (21) 2295-4846, internet: www.ciencia.org.br.

Secretaria de Educação de Embu, R. Andronico dos Prazeres Gonçalves, 114, 06804-200, Embu, SP, tel. (11) 4704-2688, internet: www.embu.sp.gov.br.

INTERNET

Consulte o site da Revista Ciência Hoje das Crianças

Gostou desta reportagem? Assine NOVA ESCOLA
e receba muito mais em sua casa todos os meses!

Comentários

 

Publicado em Janeiro 2004.

 

Associação Nova Escola © 2016 – Todos os direitos reservados.