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Muito além do jardim

A falta de energia traz à tona a nova Educação Ambiental e ajuda a formar cidadãos capazes de consumir com responsabilidade

Ferdinando CasagrandePriscila Ramalho, Colaboraram Ricardo Falzetta, de Campo Grande, e Juliana Fantossi. Foto: Gilvan Barreto

Ecologia no corredor do supermercado:
aprendendo a preservar o planeta em
todas as atitudes do cotidiano

No Brasil todo, não se fala em outra coisa. Nas ruas das grandes cidades (onde a iluminação pública diminuiu muito), nos bares, num jantar entre amigos, dentro da sala de aula e nos corredores da escola, o assunto é sempre o mesmo: racionamento, truques para gastar menos, a necessidade de desligar eletrodomésticos, o risco do apagão. Como não poderia deixar de ser, a grande discussão nacional logo virou recurso didático. Desde junho, quando foi imposto o sistema de metas de consumo, muitos professores passaram a trabalhar com seus alunos projetos para aprender a medir a potência dos equipamentos elétricos e os caminhos para economizar os 20% exigidos pelo governo. No próprio ambiente escolar, diretores e secretários também começaram a calcular a melhor maneira de garantir a redução do número de quilowatts da conta.

O tema, que fez todo mundo se acostumar a apagar a luz sempre que sai de qualquer ambiente e a nunca mais ficar com a porta da geladeira aberta à toa, é uma oportunidade de ouro para incorporar ao currículo novos conceitos, cada vez mais presentes nas grandes discussões sobre o futuro do planeta - e os estudantes, é claro, não podem ficar de fora dessa. A crise energética, garantem os especialistas, é apenas o pretexto para você, professor, mergulhar fundo na nova Educação Ambiental e formar uma geração mais consciente de seu papel no mundo.

É uma mudança importante. Até alguns anos atrás, a disciplina era vista como um espaço para debater a preservação de espécies animais (como o mico-leão, na Mata Atlântica) e lutar contra o desmatamento (na Amazônia, por exemplo). Em outras palavras, brigar pelo verde. Hoje, ela vai muito além do jardim. Sua principal missão é revelar a necessidade de consumir de forma responsável agora - para que a Terra continue um lugar habitável no futuro. "As crianças devem aprendem a proteger a natureza no dia-a-dia, tanto no campo como na cidade", resume a geógrafa Mônica Renard, coordenadora do Instituto 5 Elementos, organização não-governamental que se dedica, entre outras atividades, a oferecer cursos de formação de professores nessa área.

Nesta reportagem, você vai conhecer o que há de mais moderno em termos de Educação Ambiental, com base em quatro eixos: o consumo responsável, a energia, a água e o lixo. "Hoje, sofremos com a falta de luz", destaca Marcos Reigota, professor de Cotidiano e Intervenção Educativa, na Faculdade de Educação da Universidade de Sorocaba, interior de São Paulo. "Amanhã, será com a escassez de água, de petróleo e de outros recursos."

O texto principal mostra, do ponto de vista dos conceitos (e com sugestões de trabalhos de sala de aula), como conviver com o planeta de forma mais consciente. Nos quadros, estão experiências bem-sucedidas de escolas que já colocaram em prática esses princípios - ótimos exemplos para se inspirar. "O que vale é perceber que somos interdependentes da natureza", define a bióloga Maluh Barciotte, doutora em Saúde Ambiental pela Universidade de São Paulo (USP) e consultora em educação para o consumo responsável.

Consumir é destruir

"Gastar ou corroer até a destruição; devorar; destruir; extinguir." Que tal usar essa definição, extraída do Dicionário Aurélio, para começar um trabalho em classe sobre o que é consumir com responsabilidade? "Cabe a todo professor ensinar que o conceito de consumo responsável significa permitir que as futuras gerações usufruam dos mesmos recursos naturais de que dispomos atualmente", diz a psicóloga Vera Marta Junqueira, diretora de Estudos e Pesquisas da Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor, o Procon. Ou seja, de nada adianta "querer levar vantagem", como preconizava um velho comercial de cigarros. Se a gente fizer tudo o que tiver vontade agora, a chance de não sobrar nada é grande.

Em 1998, o Procon realizou uma pesquisa intitulada Consumidor e Meio Ambiente. Ela revela que, embora seja uma preocupação de muitos, a natureza ainda não influencia as atitudes cotidianas. Em alguns casos, faltam informações básicas. "É comum as pessoas dissociarem a eletricidade da quantidade de água nas represas, por exemplo", afirma Vera. "Sem falar na noção, largamente difundida, de que vivemos num país onde a abundância impera." O mesmo ocorre com o lixo. Quem sabe explicar o que acontece depois que colocamos o saco do lado de fora do portão de casa ou no depósito do edifício em que moramos?

Por isso, é preciso mudar hábitos. Só assim vamos conseguir um novo modelo de desenvolvimento. Não basta ir a um supermercado e olhar o preço e a data de validade dos produtos. Tão importante quanto é pensar no impacto que eles causam na natureza. Exatamente como fazem as escolas da rede municipal de São José dos Campos, a 97 quilômetros de São Paulo. No projeto de consumo responsável, os professores levam a garotada ao aterro sanitário da cidade para que todos vejam, com os próprios olhos, como boa parte das compras do carrinho vão direto para o lixo e que, portanto, compensa escolher determinadas embalagens em detrimento de outras (leia o quadro abaixo).

Formando consumidores conscientes

Você já prestou atenção no carrinho de supermercado? Se fizer isso, vai descobrir que grande parte das compras são resíduos (coisas que não serão utilizadas). Potes, sacos, caixas, selos, tampas, embrulhos e restos não aproveitados das comidas que, em poucos dias, vão parar na lixeira.

Para mostrar essa relação, a Escola Municipal Elza Regina Bevilacqua, em São José dos Campos, interior de São Paulo, organizou um passeio bem original. Levou os alunos ao aterro sanitário da cidade e, logo depois, a um supermercado. O objetivo: fazer com que eles pudessem identificar nas prateleiras todo aquele "lixo em potencial". A garotada aprendeu a identificar as embalagens mais prejudiciais ao meio ambiente e a ler os rótulos, prestando atenção em detalhes como a composição, os aditivos e a origem. De volta à escola, selecionaram alguns produtos e foram pesquisar sobre todas as etapas da fabricação, desde a extração da matéria-prima da natureza.

A atividade faz parte de um programa da Secretaria Municipal de Educação que investe na formação de consumidores mais conscientes e responsáveis. A iniciativa começou com a introdução da disciplina de Educação do Consumidor no currículo do Ensino Fundamental. Seu objetivo é chamar a atenção para a propaganda e os apelos visuais que diariamente incitam as crianças a comprar mais e mais. "Tento provocá-las com algumas questões como ‘Será que eu realmente preciso disso?’, ou ‘O que vai causar menos estrago ao meio ambiente?’", conta a professora Adriana de Fátima Mesquita.

Atualmente, o tema do consumo está presente em todas as áreas. Elvira Suely Scaquetti leciona História e sempre encontra um jeito de abordá-lo nas aulas sobre a industrialização e os ciclos econômicos, entre vários outros assuntos. "A essência da minha disciplina é buscar no passado as explicações para os problemas que vivenciamos", diz. "Se a sociedade de hoje é problemática do ponto de vista ambiental, não posso deixar de lado essa questão."

Basta uma visita à casa da aluna Fernanda Sousa Pinto, de 12 anos, para ver que o investimento tem retorno garantido. A família - professora, advogado e três filhos adolescentes - havia adotado como hábito o uso de copos descartáveis no dia-a-dia. Juntos, gastavam mais de 400 unidades por mês. Depois de aprender os danos que o plástico causa à natureza, Fernanda convenceu a mãe a voltar a usar os de vidro. "Descartáveis, agora, só nas festas de aniversário", orgulha-se a menina.

Um bom conceito a trabalhar é a chamada equação dos 3R:

●  Reduzir - consumir menos é fundamental. Hoje, o Brasil produz 88 milhões de toneladas de lixo por ano, cerca de 440 quilos por habitante;

●  Reutilizar - é impossível reduzir a zero a geração de resíduos. Mas muito do que jogamos fora deveria ser mais bem reaproveitado. Potes e vasilhames de vidro e caixas de papelão podem ser úteis em casa ou nas indústrias de reciclagem. E o destino de restos de comida, como cascas e folhas, tinha de ser a compostagem;

● Reciclar - o "erre" mais conhecido é sinônimo de economia de matérias-primas. Vidro, papel, plástico e metal representam, em média, 50% do lixo que vai para os aterros. Além disso, a reciclagem pode virar dinheiro. O economista Sabetai Calderoni, do Núcleo de Políticas Estratégicas da USP e autor do livro Os Bilhões Perdidos no Lixo, calcula em 5,8 bilhões de reais por ano o total que o Brasil deixa de arrecadar com materiais recicláveis. Uma fortuna equivalente a dezessete vezes o orçamento do Ministério do Meio Ambiente.

Saber usar essa equação é ensinar a poupar o planeta. "Nas cidades, temos muito a aprender sobre a relação com a natureza", afirma Christopher Flavin, presidente do Worldwatch Institute (leia a entrevista abaixo). "Toda ação tem uma conseqüência e o aluno precisa refletir sobre isso", emenda Maluh Barciotte. Ela oferece um "truque" para envolver a garotada: estimular as consultas ao serviço de atendimento ao cliente para conhecer melhor as empresas. 

"A Terra está muito doente"
 
O americano Christopher Flavin é um dos mais respeitados ambientalistas da atualidade. Presidente do Worldwatch Institute (WWI), ONG que se dedica a analisar as condições da Terra e produz um relatório anual conhecido como Estado do Mundo, veio ao Brasil para o lançamento das diretrizes curriculares de Educação Ambiental, durante a Semana do Meio Ambiente. Em Brasília, ele recebeu a repórter Priscila Ramalho para uma entrevista. A seguir, alguns trechos.

NOVA ESCOLA> Como o senhor avalia a situação ambiental da Terra?
Christopher Flavin< Ela é um paciente muito doente cujos sinais vitais estão muito fracos. O número de espécies diminui, o desmatamento aumenta e os reservatórios de água são cada vez menos numerosos e mais poluídos. Sem falar no efeito estufa, que está provocando alterações no clima e em todo o meio ambiente. Mas acredito que esse doente pode se recuperar, se começarmos agora mesmo a mudar o rumo da economia global.

NE> Como a escola pode ajudar?
Flavin< Ela precisa informar a nova geração sobre a gravidade dos problemas e incentivar os alunos a buscar soluções. Para que, quando eles crescerem, levem esse espírito para suas áreas de atuação.

NE> Como o professor deve levar essa discussão para a sala de aula?
Flavin< Se pudesse, eu introduziria no currículo uma disciplina só para tratar do assunto. Ao mesmo tempo, porém, acredito que as questões ambientais estão inseridas em todas as áreas e cabe ao professor relacioná-las à Literatura, à História...

NE> No Brasil, 80% da população vive em áreas urbanas. Como falar em Educação Ambiental nas grandes cidades?
Flavin< Ali são fabricados os produtos que destroem as florestas, ali se consome a maior parte da energia, ali sofremos com o trânsito. E são as cidades que causam as mudanças climáticas. Existe muito a estudar com base nos problemas urbanos.

NE> Como mostrar às crianças a relação homem-natureza?
Flavin< As crianças têm um modo quase intuitivo de ver a natureza , particularmente as que vivem nas cidades. Aos adultos cabe mostrar de onde vêm a comida e a água, para onde vão o esgoto e o lixo. Todos precisam entender a dinâmica do meio ambiente na cidade moderna. Queimamos combustíveis fósseis e depois respiramos o ar com o dióxido de carbono que ficou na atmosfera.

NE> Continua valendo o princípio "pense globalmente e aja localmente"?
Flavin< Há muito a dizer e fazer globalmente, como no caso dos tratados internacionais, mas as principais ações continuam sendo locais. Sim, esse continua sendo um bom princípio. 

Outra sugestão interessante é explorar o "ciclo de vida" de uma lata de alumínio. A principal matéria-prima é a bauxita, um minério relativamente raro cuja extração destrói grandes montanhas. Sua transformação no metal consome enormes quantidades de energia (só essa etapa da produção responde por 70% do preço final). Apesar de 100% reciclável, nem tudo o que é produzido volta para a reciclagem. Aliás, a indústria não é sequer obrigada a recolher o que fabrica para futuro reaproveitamento. Finalmente, lembre que uma garrafa de plástico de 2 litros tem mais refrigerante do que cinco latinhas. Diante de tudo isso, proponha algumas questões aos alunos:

1. Vale a pena continuar extraindo bauxita em grandes quantidades?

2. Existe alguma fonte de energia, mais barata, capaz de transformar o minério em alumínio?

3. Quem recolhe as latas usadas? É interessante para o país manter o atual mecanismo ou seria mais vantajoso obrigar as indústrias a reciclar?

4. É melhor: continuar comprando dezenas de latinhas ou voltar para as garrafas de plástico ou de vidro?

A última questão abre o debate para o impacto do plástico e do vidro na natureza, certo? Pronto, o projeto está em andamento. Uma conversa sobre qualidade de vida também ajuda muito. "Nossa sociedade é baseada no desperdício, vende a imagem de que só se vive vem bem consumindo muito", destaca Maluh. "Nós, adultos, temos a obrigação de desmontar essa idéia." Para isso, use exemplos simples, como o padeiro que embrulha o pão numa folha de papel manteiga, que é colocada dentro de um saco de papel e, depois, em outro de plástico. Será que a gente precisa mesmo produzir tanto lixo por causa de um pãozinho?

Economizar é preciso

Qualquer conversa sobre a necessidade de consumir vai, fatalmente, derivar para a questão da eletricidade. O biólogo Antonio de Pádua da Silva Campos trabalha com programas de educação na Furnas Centrais Elétricas e tem experiência na montagem de projetos interdisciplinares sobre energia. Confira algumas sugestões:

●  História - inclua o tema nas aulas sobre a revolução industrial, que só foi possível graças ao aumento da produção (e consumo) de energia e determinou a aglomeração nos centros urbanos e a formação das cidades;

●  Língua Portuguesa - trabalhe os textos publicados na imprensa;

●  Geografia - o estudo da estrutura hídrica do Brasil ajuda a entender a opção do país pelo modelo de usinas hidrelétricas para geração.

Esses temas podem inspirar uma campanha de racionalização do uso da eletricidade. O físico Roberto Kishinami, ex-diretor do Greenpeace, uma das ONGs mais atuantes na preservação ambiental, sugere a organização de uma comissão de alunos, funcionários, professores e direção para avaliar o consumo. Assim, a turma aprende a ler a conta e o relógio de luz, a medir a potência das lâmpadas e a fazer planilhas. Uma forma de estimular a participação é criar um cartaz com a meta da escola e atualizá-lo, diariamente, com o total gasto.

O trabalho, em Matemática, exige apenas conhecer os eletrodomésticos. Quase todos têm placas com a potência em watts. Basta multiplicar esse número pelas horas que o equipamento fica ligado para saber o consumo. Vale lembrar que 1000 watts correspondem a 1 quilowatt (kw), a medida usada nas contas de luz. Siga o exemplo de uma TV de 20 polegadas, que tem potência na faixa de 200 watts.

●  Se essa TV fica ligada três horas por dia, consome 600 watts, ou 0,6 kw/dia.

●  Multiplique o valor pela quantidade de dias do mês: 0,6 kw X 30 dias = 18 kw. Esse é o tanto que o aparelho representa na conta.

Peça que a garotada repita esses cálculos com outros aparelhos. Confira a potência média: chuveiro, de 1500 (no verão) a 2000 watts (no inverno); ferro elétrico, por volta de 1000 watts; geladeira, em média 250 watts.

Uma escola unida contra o apagão

No início do ano, Ronaldo Conceição da Silva, professor de Ciências do Colégio Maria Montessori, em Campo Grande, planejou para a 8a série um trabalho sobre consumo de energia. Eletricidade é um dos temas do Ensino Médio que começam a ser ensinados no último ano do Ensino Fundamental. Mal sabiam ele e a turma que os subatômicos elétrons passariam a valer ouro. Tudo por causa do famigerado racionamento de energia - que virou recurso pedagógico. O projeto, que ainda não terminou, envolveu toda a escola, os pais e a comunidade e já produziu resultados.

Desafiando os alunos a reduzir o consumo de energia em casa, Silva conseguiu trazer um tema do cotidiano para a sala de aula e mostrar como o conhecimento sobre energia elétrica pode ser aplicado numa situação concreta. "Antes do racionamento, eu ficava horas no quarto, com o computador, o som e a TV ligados", confessa Andressa Mendes Nogueira. Seu colega Henrique Ianaze descobriu que o pico do consumo residencial ocorria das 23 às 6 horas. Na quente Campo Grande, a família só dormia com os três aparelhos de ar-condicionado ligados. O estudante convenceu pais e irmãos de que ali estava o maior potencial de economia. "Mudamos de conduta e o ar fica desligado à noite."

Para começar, Silva pediu que os alunos fizessem o levantamento do consumo de cada eletrodoméstico. Nos equipamentos da escola, o professor mostrou como proceder para buscar a informação (no manual de instruções ou no próprio aparelho). Feita a pesquisa doméstica, todos fizeram o cálculo em kw/h (quilowatts por hora). Silva, então, mostrou que as máquinas que geram mais calor (secador de cabelos, secadora de roupas, lava-louça, torradeira e chuveiro elétrico, entre outras) são as que mais aumentam o valor da conta de luz.

Na etapa seguinte, os alunos desenharam a curva de carga diária de cada casa. A turma estimou o tempo que cada aparelho elétrico ficava ligado e, com o auxílio da professora Odila Navarro Graeff, de Matemática, projetou o gasto total, hora a hora. Os números viraram gráficos, para facilitar a análise. Ao observar as curvas, os alunos descobriram os picos e verificaram quais equipamentos eram os vilões do consumo. Ficou fácil verificar que tirar a lâmpada da geladeira não faz muita diferença, mas checar a vedação da porta e abri-la o mínimo possível são boas iniciativas.

O próximo passo foi a criação coletiva de normas para economizar. Nas aulas de Língua Portuguesa, a professora Leslie Fernandez do Carmo Weiler coordenou a produção de um panfleto com as normas definidas anteriormente e os slogans de redução do consumo.

Sob a orientação de Meire Camacho, nas aulas de Arte, nasceram vários candidatos a Economom, mascote do projeto e personagem principal da campanha. A escolha foi feita por toda a comunidade escolar num dia de entrega de boletins. O desenho vencedor foi impresso em camisetas e ímãs de geladeira e os folhetos foram distribuídos pelos estudantes nas calçadas, nos semáforos e nas residências em torno da escola.

Foi com base numa atividade desse tipo que o professor Ronaldo Conceição da Silva criou o projeto que está mobilizando a 8a série do Colégio Maria Montessori, em Campo Grande (leia o quadro abaixo). Mais do que simples atividades de Ciências, ele conseguiu desenvolver uma ampla discussão sobre a importância de economizar energia. Outra ótima alternativa é abordar o sistema de geração brasileiro, como você pode ver a seguir.

●  Usinas hidrelétricas - respondem por 93% da energia produzida no país. A principal vantagem é ser uma fonte limpa (não emite CO2, um dos responsáveis pelo efeito estufa). As maiores desvantagens são a dependência do clima (pouca chuva é igual a racionamento) e a necessidade de grandes investimentos. Além disso, provoca impactos ambientais ao represar os rios e alagar áreas imensas;

●  Usinas termoelétricas - produzem 6% de nossa energia. A favor, tem o fato de ser confiável e não depender de fatores climáticos. Por outro lado, os combustíveis fósseis têm custo alto e preços instáveis, e sua queima polui muito o ar.

●  Usinas nucleares - geram 1% da energia nacional. Em sua defesa, está a abundância do combustível nuclear. Seus opositores condenam o alto investimento na construção e os riscos causados pelo lixo tóxico (quem não se lembra do acidente de Chernobyl, na antiga União Soviética, o pior do gênero em todos os tempos?).

 "É fundamental mostrar que existem outras formas de produzir energia, várias das quais temos potencial para explorar", argumenta Kishinami. Alternativas 100% renováveis e que não provocam poluição, como a solar e a eólica, infelizmente não estão nos planos de investimento do governo. A opção, neste momento, é por mais termoelétricas, que funcionarão com a queima de gás natural importado da Bolívia. Ele é um combustível fóssil, mais limpo que o petróleo ou o carvão, mas que emite gás carbônico, um dos vilões do efeito estufa (veja o mapa dos principais países emissores de CO2 e leia mais sobre as fontes renováveis de energia no Site do Professor).

Use esses dados para regionalizar a atividade. Seus alunos sabem de onde vem a energia consumida na cidade? Qual dos três modelos é usado para fornecer a luz? Se possível, leve a turma para conhecer a estação retransmissora, a usina ou o gerador mais próximo.

Coleta seletiva

O terceiro grande eixo da nova Educação Ambiental é o lixo. Com a crescente urbanização, o volume de resíduos não pára de aumentar. Como quase tudo vai parar em aterros sanitários ou lixões, a situação desses espaços é cada vez pior. Dos 5507 municípios brasileiros, apenas 135 têm algum tipo de coleta seletiva, apesar de as vantagens serem inúmeras. Conheça o exemplo de Porto Alegre, implantado em 1990 e presente em todos os 150 bairros. Na capital gaúcha, são produzidas 20000 toneladas de resíduos domésticos por dia. O programa dá emprego a 450 pessoas que antes viviam nas ruas. Elas estão divididas em oito unidades de triagem, para onde os 24 caminhões do lixo seco transportam cerca de 60 toneladas diárias.

Além do ganho social, o projeto trouxe lucros ecológicos nesses dez anos. Veja o que foi reciclado:

● 15518 toneladas de papel, preservando assim 529000 árvores, 90% da água e 78% da energia que seriam utilizadas na produção desse volume;

● 9106 toneladas de vidro, economizando 10045 toneladas de areia;

● 5321 toneladas de latas, preservando 6060 toneladas de minério de ferro e 820 toneladas de carvão.

E onde você mora, o que acontece? Quanto lixo é produzido? Existe alguma separação? Para onde vai esse material? Faça os alunos responderem a essas questões. "Precisamos mostrar a realidade para mudar a mentalidade", diz Dan Moche Schneider, especialista em gestão ambiental e engenheiro do Departamento de Limpeza Pública de São Paulo. "Muita gente acha que resolve o problema quando coloca o saco de lixo na calçada - e não é nada disso."

Na escola, o primeiro passo pode ser a criação de um sistema de separação dos rejeitos, com três cestos.

●  Lixo seco - para materiais recicláveis. Não é necessário separar plástico de vidro, papel ou metal. Isso é trabalho para quem recolhe as embalagens;

●  Orgânicos - o chamado lixo molhado (restos de comida que podem ser transformados em adubo orgânico);

●  Rejeitos - lixo de banheiro, medicamentos, pilhas comuns e outros resíduos sem reaproveitamento.

Assim, as crianças aprendem a reconhecer o que é reciclável e levar para a escola. O material arrecadado pode ter vários destinos. Um, bastante comum nas grandes cidades, é trocar nas indústrias do setor por prêmios, como computadores. Outro, mais interessante, é doar para instituições de caridade, como faz o Colégio Guilherme Dumont Villares, na capital paulista. No grande saco de lixo colocado no pátio da escola entra apenas plástico - que vira dinheiro para a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (leia o quadro abaixo).

Voluntários pela saúde do planeta

Quem entra no Colégio Guilherme Dumont Villares, em São Paulo, dá de cara com um enorme saco de lixo encostado do lado de dentro do portão, motivo de orgulho para alunos e professores. Trata-se do recipiente onde são depositadas todas as embalagens que se encaixam no programa de reciclagem de plástico, implantado há um ano na escola graças a uma parceria com o Instituto 5 Elementos - organização não-governamental da capital paulista que promove e apóia pesquisas e projetos em Educação Ambiental.

Tudo começou com uma aula sobre a origem, a composição e o tempo de vida do plástico e com um trabalho de conscientização sobre a importância da reciclagem nos dias de hoje. Num segundo momento, a garotada aprendeu a preparar o lixo caseiro para a coleta seletiva (limpar os recipientes, separar tampas e rótulos, jamais misturar com restos de alimentos).

"A mudança de atitude é evidente", comemora a professora Mariléa Farah, da 4a série. Ela conta que virou moda entre as crianças lavar os potes de iogurte consumidos durante o recreio e jogá-los no saco. "Mas ainda mais gratificante", ressalta ela, "é vê-las levar esse espírito para casa."

É o caso da estudante Thaís Gimenes, que conseguiu convencer a tia a aderir à coleta seletiva. "Eu virava o cesto e derramava tudo no chão, só para chamar a atenção", lembra a menina, que aprendeu em classe a reutilizar embalagens - sobretudo as de PET, usadas para refrigerantes - para fazer enfeites, porta-lápis e brinquedos. "No momento em que os alunos entendem a amplitude do trabalho, eles se transformam no melhor aliado que o planeta pode ter", garante Mariléa.

O colégio não lucra nada com a venda do material. Tudo o que é recolhido é doado para a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), que vende às indústrias recicladoras e angaria dinheiro para seus projetos. "Além de contribuir para a sustentabilidade da Terra, estamos exercitando a solidariedade", explica a diretora, Eliana Baptista Aun. Segundo ela, as duas ações têm a mesma essência: o protagonismo social. "Reciclar é uma ação voluntária pela humanidade", analisa.

A campanha continua a todo vapor - o caminhão da Apae carrega, toda semana, cerca de 200 quilos de resíduos. Tão importante quanto a doação do plástico, porém, é o espírito que o movimento vem despertando. Espírito de participação, cooperação, mobilização - competências que os alunos certamente levarão para sempre como uma lição de vida.

 "O ideal é não estabelecer relação de lucro", explica Maluh Barciotte, "para não incentivar o consumo". Entrar numa gincana para trocar latinhas usadas por um computador só vai aumentar o gasto da garotada com refrigerantes e, conseqüentemente, o volume de lixo produzido - em vez de fazer crescer a consciência da necessidade de preservar o planeta.

Essa consciência, aliás, causa alguns problemas inesperados, às vezes. Várias escolas promovem a coleta seletiva de pilhas. Extremamente nocivas ao meio ambiente por causa dos metais pesados que contêm, elas não deveriam ser descartadas no lixo comum. O jeito certo seria a indústria recolher tudo - e evitar a contaminação. No entanto, isso não ocorre.

Sabe por quê? A resolução do Conselho Nacional de Meio Ambiente que determina que os fabricantes recuperem as pilhas usadas faz uma ressalva: a lei só vale para as que tenham chumbo ácido, níquel-cádmio e óxido de mercúrio em seu interior. Ou seja, basicamente as baterias de celular. Portanto, ninguém é responsável pelo destino das pilhas comuns. Como pouca gente sabe disso, acaba reunindo os invólucros usados e, sem ter como se desfazer deles, acaba jogando no lixo. Só que, juntos, eles causam danos ainda maiores à natureza.

Além da reciclagem, a divisão em três cestos ajuda a introduzir o conceito de compostagem (produção de adubo orgânico). Esse processo pode ser feito no pátio como um exercício curricular. Não deixe a garotada trazer o lixo molhado de casa, porque é impossível lidar com tantos resíduos. A educadora Eunice Lamarca, que capacita professores na criação de materiais didáticos de sucata, ensina a montar sistemas de compostagem. Siga a receita:

●  Para começar, separe cascas de ovos, frutas e vegetais, mais pó de café, restos de comidas e resíduos do próprio jardim. Evite óleos, carnes e queijos, que podem atrair animais e insetos;

●  O material deve ser reunido no espaço reservado à compostagem e coberto com terra. Misture bem para que o composto entre em contato com o ar;

●  Depois de pronto, o adubo pode ser usado na horta, no jardim ou na praça mais próxima.

O próximo desafio

Para muitos é difícil acreditar, mas a água também pode acabar. Justo ela, que sempre foi "renovável" e cujo ciclo aparece tão bem arquitetado nos livros de Ciências. Evaporada graças ao calor do sol, volta como chuva e forma lagos, rios e lençóis freáticos, de onde é retirada para o consumo. Depois, por evaporação ou transpiração, retorna à atmosfera. Uma engenharia perfeita, até ser abalada pelo homem.

Ele interfere contaminando os reservatórios e esvaziando-os num ritmo que a natureza não repõe. A impermeabilização acelerada do solo e a destruição da cobertura vegetal e das matas ciliares diminuem a capacidade de renovação dos lençóis freáticos. "A água escoa rapidamente para o leito dos rios de grande volume e corre para o mar", descreve Roberto Kishinami. "Na prática, estamos escoando uma grande quantidade de água doce direto para o oceano."

O principal responsável pela escassez é o crescimento da população e do consumo mundial. Entre 1900 e 1995, o número de habitantes do planeta quadruplicou. Toda essa gente passou a usar seis vezes mais água que há um século. "Enquanto isso, a quantidade do precioso líquido no planeta continua a mesma de 500 milhões de anos atrás", explica a professora Emilia Rutkowski, do Departamento de Saneamento e Ambiente da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Além disso, grande parte não está acessível ou não tem qualidade para o consumo. Resultado: um terço da população mundial não tem como satisfazer suas necessidades básicas, segundo relatório da Organização das Nações Unidas (ONU). E as projeções indicam que daqui a 25 anos outro terço terá se juntado ao atual.

No Brasil, a situação é quase paradoxal. Temos o previlégio de possuir 16% de toda a água potável do planeta - mas 80% disso está concentrada na Região Norte. Como é impossível construir dutos ou "linhas de transmissão" (como as de energia) para levar o líquido para as regiões mais populosas, cada vez aumenta mais o problema da escassez. E não é só no sertão.

Recife, que ganhou o apelido de "Veneza brasileira" por causa de seus canais, não tem de mais de onde tirar recursos para abastecer a população. Parece ironia, mas não é. O Rio Capibaribe, que banha a cidade, está totalmente poluído. São Paulo, a capital econômica do país (cidade erguida na faixa úmida da Mata Atlântica), convive com racionamentos há vários anos.

Para resolver o problema, não há segredo. É preciso reverter os impactos causados pelo homem: despoluir os mananciais, cuidando para que outros não sejam poluídos, e racionalizar o consumo. Ninguém mais tem dúvidas de que muita água acaba indo pelo ralo sem necessidade. A ONU estima que 120 litros são suficientes para suprir as necessidades diárias de uma pessoa. Cada brasileiro, porém, usa cerca de 200 litros por dia, conforme estudo recente da Agência Nacional de Água. "Somos muito perdulários", analisa Emília. "Sempre acreditamos que as riquezas naturais do país eram infinitas." Doce ilusão.

As dicas de economia são bem conhecidas: ficar menos tempo debaixo do chuveiro, fechar a torneira ao escovar os dentes ou fazer a barba, não lavar a calçada com mangueira... O que falta é interiorizar esses hábitos. Na Escola Municipal João Costa, em Joinville, a maior cidade catarinense, esse trabalho demorou quase dez anos para virar rotina. Mas os resultados são compensadores. O consumo de água caiu 70% (leia o quadro). Saiba quanto vale o desperdício. 

●  Deixar a torneira aberta durante cinco minutos (o tempo de escovar os dentes, por exemplo) significa um gasto médio de 12 litros;

●  Um longo banho de 15 minutos consome 45 litros;

●  Lavar a calçada de casa com mangueira, durante 15 minutos, consome 279 litros.

Em sala de aula, um bom caminho é descobrir de onde vem a água que todos usam. Questione se existe tratamento de esgotos na cidade e se os rios são poluídos. Visite a estação de tratamento e distribuição. Mesmo que você more num povoado no interior do Amazonas, é possível conhecer o ponto exato em que a água é captada do rio e observar se ele fica próximo ao local onde a população lava as roupas ou a louça. É esse tipo de conhecimento que nos aproxima da natureza (nem é preciso dizer que o mesmo vale para os alunos).

Consumir de forma responsável, evitar o desperdício, reduzir, reciclar, reutilizar, saber ler os rótulos dos produtos e escolher as embalagens menos nocivas ao ambiente, economizar água e energia elétrica. Em outras palavras, formar cidadãos mais conscientes de seu lugar no mundo, aptos a preservar e lutar pelo planeta em que vivem. Para garantir que, no futuro, ainda exista a Mata Atântica, com muitos micos-leões. E muito verde na Amazônia.

Quer saber mais?

Colégio Maria Montessori, R. Abrão Júlio Rahe, 1110, CEP 79020-190, Campo Grande, MS, tel. (67) 782-7576

Colégio Guilherme Dumont Villares, Av. Dr. Guilherme Dumont Villares, 723, CEP 05640-001, São Paulo, SP, 
tel. (11) 3743-5531

EMEF Profa. Elza Regina Ferreira Bevilacqua, R. Breno de Moura, s/no., CEP 12232-040, São José dos Campos, SP, tel. (12) 316-6420

EMEF João Costa, R. Monsenhor Gersino, 3900, CEP 89230-000, Joinville, SC, tel. (47) 466 0549

Programa Água Nossa, R. Visconde de Mauá, 67, CEP 89204-500, Joinville, SC, tel. (47) 433-4666, www.docol.com.br, e-mail: aguanossa@terra.com.br

Instituto 5 Elementos, R. Caio Graco, 379, CEP 05044-000, São Paulo, SP, tel. (11) 3871-1944, www.5elementos.org.br, e-mail: elements@5elementos.org.br

Instituto Akatu, www.akatu.net

Worldwatch Institute, www.wwiuma.org.br, e-mail: uma@worldwatch.org.br

Eunice Lamarca, R. Prof. João Arruda, 283, CEP 05014-002, São Paulo, SP, tel. (11) 3487-1262, www.albaadesivos.com.br, e-mail: artecomsucata@globo.com

Maluh Barciotte, tel. (11) 3758-7009, e-mail: mabarciotte@sti.com.br

Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon/SP), R. Barra Funda, 930, 4o andar, CEP 01152-000, São Paulo, SP, tel. (11) 3824-7084

Ministério da Saúde, Secretaria de Políticas de Sáude - Projeto Promoção da Saúde/Programa Educação em Saúde, tel. (61) 315-2934, e-mail: promocaod@saude.gov.br

BIBLIOGRAFIA
Avaliando a Educação Ambiental no Brasil - Materiais Audiovisuais, Rachel Trajber e Larissa Barbosa da Costa, 160 págs., Ed. Fundação Peirópolis, tel. (11) 3816-0699, 24 reais

Ecologia, um Guia de Bolso, Ernest Callenbach, 240 págs., Ed. Fundação Peirópolis, tel. (11) 3816-0699, 23 reais

Educação Ambiental - Princípios e Práticas, Genebaldo Freire Dias, 552 págs., Ed. Gaia, tel. (11) 3277-7999, 45 reais

Guia Ecológico Doméstico, Dan Moche Schneider e Maurício Waldman, 174 págs., Ed. Contexto, 
tel. (11) 3832-5838, 22,20 reais

Verde Cotidiano - O Meio Ambiente em Discussão, Marcos Reigota (org.), 152 págs., Ed. DP&A,
 tel. (21) 232-1768, 12 reais 

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Publicado em NOVA ESCOLAEdição 144, Agosto 2001,

 

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